Tipos sobre trilhos; coisas de trem
Eu pego trem da CPTM todos os dias na volta da faculdade e também quando vou a Sampa sozinho. Incrível como sempre me surpreendo com a fauna desse lugar, que deixa qualquer metrô totalmente antipático (apesar do esforço dos maquinistas em nos divertir com suas desajustadas intervenções sonoras).
O mais grave problema desses trens é a superlotação, mas a condição não chega a ser grave. Apesar de muitas vezes não dar nem para se mexer direito, o comércio ambulante (ilegal, é importante registrar) sempre está presente. Deles, a face mais exposta desse ecossistema, fica a observação das vozes pragmaticamente tonalizadas, como se uma fórmula de entonação propícia a vendas tivesse sido elaborada - algo que eu com certeza pesquisaria a fundo caso estudasse Fonoaudiologia. É impressionante.
Tal recurso também é utilizado pelos pedintes, presentes em grande escala. Além do tom de voz ser muito semelhante entre eles, os discursos são quase sempre os mesmos. Se existisse uma nuvem de tags com as palavras e frases mais ditas por essas pessoas, certamente estariam presentes, em letras garrafais: Mantimento de cada dia, ajuda, família, irmãos, filhos, desempregado (a), uma moeda, sua atenção, não é pra comprar droga, Deus abençoe todos vocês, e - claro - eu não estou roubando.
Ambos os grupos estão se aperfeiçoando, criando técnicas cada vez mais eficazes. Os vendedores até simulam brigas: Vão em dupla e entra um em cada ponta do vagão vendendo o mesmo produto, pelo mesmo preço, R$1,00. Vão caminhando ao centro e, lá, se encontram, com espanto e dramaticidade. Iniciam uma discussão - algo como “Eu vim de Morato, tô trabalhando o dia inteiro! Você chegou agora e quer vender no meu vagão?” - e resolvem o problema: um grita “Ah é? Pois agora é 2 por 1 real” e o outro também abaixa o valor para manter a concorrência. Esse sempre foi o preço, mas os incautos passageiros acreditam que é uma promoção motivada pela briga e se empolgam em comprar. Funciona que é uma beleza.
Já os pedintes que alegam possuir algum problema de saúde andam com um atestado médico na mão, para calar a boca de quem acha que é mentira. Nunca vi ninguém pedir para ver o documento, mas, pela quantidade de dinheiro que recebem, acho que as pessoas acreditam.
Outras figuras recorrentes são os “músicos” e “cantores” dispostos a nos brindar com seu talento e bom humor em troca de alguns centavos. Hoje mesmo uma dupla de repentistas de ótima qualidade deu seu espetáculo. Brincavam com os passageiros e faziam piadas tão divertidas sobre a estada de Bush em São Paulo que eu quase dei dinheiro. Quase. Normalmente essas pessoas são bem desagradáveis, irritantes mesmo. Mas quando são simpáticas e têm talento, viram uma atração e se incorporam à cena de uma forma tão harmônica que conquistam a platéia e faturam um bom trocado.
Quase todos os dias entro em conflito moral interno: dar ou não dinheiro? Acabo nunca dando, por, em um primeiro momento, não acreditar em assistencialismo e, principalmente, por não gostar de colaborar com atividades ilegais. Por outro lado, de fato, eles não estão roubando e, além do mais, a viagem fica muito mais rica com eles, que são quase tão fascinantes quanto os próprios passageiros.
Compare Preços: Friends, Gilmore Girls, The OC, Smallville

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Tambem fico nesta duvida, mas não consigo imaginar o trem sem essas pessoas. Li que desde do dia 12 de março há uma ronda severa, e percebi isto nos trens, pergunto cade meus personagens? Desenvolvo um trabalho em artes visuais dentro dos trens da linha B, e esta ausencia esta me fazendo uma falta.
Caso possua algum registro desses sons que considero muito interessantes ou imagens e puder me enviar?
Ana