por / 1 Abr

Há muito penso nisso. Se eu morresse amanhã, como meus amigos de blog e Internet saberiam?
Meu celular exige senha a cada meia hora, não tenho agenda de papel e minha família não sabe mexer no computador – que também é protegido por senha. As pessoas saberiam? Eu simplesmente sumiria?
Isso me aterroriza de certo modo e incomoda pra caramba. Por mais que você construa toda uma vida online, ela pode ser simplesmente pausada com a sua morte, sem nem direito a um final.

Ou então ela continua, eternizada até expirar, como um mosaico de vida em meio a lágrimas da morte. Não há coisa mais triste e ao mesmo tempo reconfortante do que encontrar momentos de vida plena de pessoas que já morreram, seja em fotos ou, principalmente, em textos – essas janelas para a alma que tanto lustramos.

Assim, com esse medo e uma sensação que não sei bem descrever, que lamento a morte do Aldemir, blogueiro que algumas vezes li e que teve o apoio de nossa blogosfera na luta contra essa doença que, ainda assim, não pôde superar.

O Alexandre Inagaki, em um belo texto resgatado pelo Rodrigo Ghedin no Blog Ajuda, disse que, ao passar pelos rastros de pessoas mortas na internet, é “inevitável a comparação com as caminhadas silenciosas que faço ao ver os túmulos de um cemitério em dia de Finados”. Pouquíssimas vezes fui a um cemitério (mesmo em velório só fui uma vez, e nela descobri que prefiro não ver o corpo de pessoas que amo), mas é exatamente isso que sinto ao caminhar pelos blogs, como nos que o Alex Castro mostra em artigo de 2004, também recuperado pelo Rodrigo.

Acho que não tenho medo da morte, mas da perda. Tanto da que eu sentiria caso alguém querido falecesse, quanto da que eu supostamente causaria com minha morte. Mesmo em blogs ou perfis de pessoas que eu não conheço, é a perda de todos aqueles que ali se manifestam que dói mais em mim.

Nessa nova relação entre vida e morte na internet, como os outros blogueiros disseram tão melhor do eu poderia sequer pensar, os “velórios virtuais” transformam-se em homenagens tão bonitas que só podem trazer vida e luz para aqueles que se foram e para todos os que ficaram e carregam no coração a lembrança que transcende ao nome na tela.

PS¹: A primeira experiência que tive de morte na internet, foi com a internauta Renatasp (vítima de um acidente de carro), na allTV. Um artigo de algum site disse que foi a primeira vez que uma televisão chorou (a emissora exibiu uma vinheta, com texto de Rosana Hermann, ao som de “Canção das Américas). Não foi só a TV. Nós, no chat, chorávamos virtualmente e de verdade a cada vez que víamos a homenagem. Triste e profundo, como se fosse algum grande amigo, apesar de ser alguém que eu tinha apenas trocado algumas poucas mensagens em uma sala de bate-papo. Isso foi há uns 3/4 anos, mas lembro como se fosse ontem.

PS²: Enquanto escrevia esse post, meu media player começou a tocar “Brilha onde estiver”, d’O Teatro Mágico, que diz “Brilha onde estiver / Faz da lágrima o sangue que nos deixa de pé”.