Qualidade sem selo: A hora dos independentes
Bandas alternativas vivem ótimo momento, ganhando espaço na mídia e aproveitando a internet para atingir o público mesmo sem o apoio das grandes gravadoras.
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“Você pode comprar nosso CD por cinco reais. Mas se você não tiver dinheiro, pode piratear!”, dizia Fernando Anitelli, comandante da trupe “O Teatro Mágico”, durante show para 3500 pessoas, seu maior público, na Academia Brasileira de Circo, em São Paulo. Na saída, o pai do vocalista vendia os CDs em uma barraquinha. Em três anos de existência, o grupo já vendeu mais de 40 mil discos, todos dessa forma, e se tornou conhecido graças a divulgação dos fãs. Não são os únicos: isso vem acontecendo com cada vez com mais freqüência e já traz novas cores para a cena musical contemporânea.
Calypso, Snow Patrol, Cachorro Grande, Cordel do Fogo Encantado, Cansei de Ser Sexy, Gossip, Mombojó, MC Serginho. Sonoridades distintas, passados semelhantes. Nascidas pequenas, essas bandas fizeram sucesso e chamaram a atenção da mídia sem contar com a força de uma grande gravadora e de seus marqueteiros. O grupo do Pará se tornou fenômeno com seu tecnobrega graças aos CDs vendidos a preços populares em bancas de camelô. O pop rock do Cansei de Ser Sexy, que hoje faz sucesso mundo afora, ganhou destaque com o fotolog da vocalista e com músicas quase amadoras disponibilizadas no site Trama Virtual, celeiro artistas independentes na internet brasileira.
“A grande oferta de bandas é superpositiva, e o Trama Virtual é um passo sensacional nesse sentido”, acredita Tatá Aeroplano, músico dos grupos Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro. Suas bandas também utilizam a internet como meio de divulgação, possuindo, além de sites próprios e de uma página no Trama Virtual, perfis nos sites de relacionamento MySpace e Orkut. “Eu sou daquele tipo de pessoa que fica a noite inteira no SoulSeek [programa de compartilhamento de áudio] atrás de músicas, conversando com pessoas sobre isso. É meu esporte favorito”, brinca Francisco Ramos, programador de softwares e músico amador. Assim como ele, o jornalista Alexandre Inagaki utiliza as ferramentas virtuais para descobrir novas bandas. “Hoje em dia, com o surgimento de sites como Last.FM e Pandora que, teoricamente, ajudam você a encontrar novos sons que você possivelmente apreciará, de acordo com as músicas que você costuma ouvir por aí, a tarefa de garimpar bandas bacanas em meio ao dilúvio de informações é bastante facilitada, embora a grande ferramenta para a descoberta de bons músicos ainda seja o bom e velho boca-a-boca, devidamente modernizado através de bate-papos no Soulseek ou troca de scraps no Orkut”, diz ele, que mantém o blog Pensar Enlouquece, Pense Nisso. “Sempre convivi com bandas alternativas. Acompanho desde os anos 90, quando a internet nem existia e a divulgação era feita por fitas cassetes, trocas de zines, shows organizados por casas locais e coisas assim”, relembra Francisco.
“O povo cansou de ouvir sempre os mesmos artistas tocando sempre as mesmas coisas. Pode não ser um sucesso mundial, mas com certeza as novas propostas musicais terão seu espaço definido no mercado”, acredita Billy Umbella, mais conhecido como Maestro Billy, DJ do programa global “Caldeirão do Huck”. Produtor musical com mais de 15 anos de atuação e passagens por grandes veículos, ele não gosta do que ouve atualmente nas rádios. “Há exceção, mas, no geral, as músicas atuais estão todas iguais, sem nenhuma novidade que valha a pena ser ouvida”, reclama. Segundo ele, as mídias convencionais vão se abrindo, aos poucos, para o novo.
“Estamos passamos por uma fase muito rica na cena alternativa brasileira, com dezenas de bandas muito boas e um público novo, que está se formando através da exposição pelos meios de comunicação”, diz Tatá, que já apareceu em diversos programas de TV, como o “Fantástico”.
“Quase todas as bandas que eu gosto não passam nas rádios ou nas TVs, mas também não deixo de assistir ou ouvir. Já conheci coisas legais na MTV e nas rádios”, conta Francisco, que possui um podcast musical. “A internet certamente tem poder o suficiente para fazer com que bandas não dependam mais de mídia tradicional para conquistarem públicos consideráveis, vide exemplos tupiniquins como Fresno, Dance of Days ou Terminal Guadalupe. E isso pra não falar de exemplos no exterior como Arctic Monkeys, Ok Go e Lily Allen, que estouraram graças à força de sites como YouTube e MySpace”, explica Inagaki. “Com a internet, não adianta tentar impor um estilo ou uma banda, cabe ao ouvinte saber o que é legal”, julga Billy, que diz tocar tudo que considera bom em seus podcasts, com destaque para o que faz para a marca Heineken, onde somente sons alternativos são veiculados. Na TV, entretanto, a liberdade não é tão grande assim. “Eu toco no ‘Caldeirão’ o que é sucesso. Eu, o Luciano [Huck, apresentador], o My Boy [sonoplasta], o diretor e o produtor musical conversamos e escolhemos o que o povo gosta.”
Para eles, as gravadoras não são vilãs da cultura brasileira. “Acho que as grandes gravadoras, quando bem administradas, podem até ajudar a cultura pop. Isso aconteceu até o início dos noventa, depois elas não acompanharam as mudanças, perderam o fio da meada”, reflete Tatá, que teve seus CDs lançados por selos independentes. Billy concorda: “Não vejo as grandes como inimigas, mas sim como um braço da música que defende seus interesses e seus produtos.”
Esse mercado, entretanto, parece cada vez mais interessado em aumentar e diversificar seu número de produtos. Nos Estados Unidos, programas populares como o “Late Show”, apresentado por David Letterman, tem dado espaço a bandas iniciantes, que rapidamente se tornam sucesso. Panorama parecido é o das séries norte-americanas. O grupo britânico Snow Patrol estorou naquele país em 2006, quando tocou em diversos seriados, entre eles “Grey’s Anatomy”, uma das maiores audiências americanas. Mesmo na TV brasileira isso já vem acontecendo: o site Trama Virtual virou programa no canal pago “Multishow”; a MTV lançou o projeto “MTV apresenta”, exibindo e transformando em DVD shows de artistas alternativos e tem ainda em sua grade o programa “Banda Antes”, com grupos em começo de carreira.
O grande motor dessa nova “indústria” é o público. “Ser apresentado para uma banda nova e realmente boa é equivalente a receber um presente. Por isso gosto de indicar a amigos”, conta Francisco. “Se você encontra um som legal que ninguém mais conhece, você quer divulgar e, no boca-a-boca, a coisa toma proporções gigantescas”, explica Billy.
O diferente parece cada vez mais interessante ao público, consolidando a cultura indie. “Com certeza há um espaço imenso para uma música que não seja comercial, nós temos conquistado um espaço muito significativo com o nosso som”, comemora Tatá, que utiliza elementos inusitados e divertidos em suas músicas. Francisco diz freqüentar diversos shows de bandas alternativas e que todas eles possuem uma característica em comum: “a quase inexistência de diferença entre o artista e o espectador. É algo mais humano, sem o ‘endeusamento’ peculiar das estrelas.”
Sinal dos tempos. Hoje, até mesmo a música entrou na era colaborativa e o underground caiu de vez no gosto do mainstream.
Compare Preços: Calypso, Snow Patrol, Cachorro Grande, Cordel do Fogo Encantado, Cansei de Ser Sexy, Gossip, Mombojó, MC Serginho, MP3 Players
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Comentários de leitores
Na condição de músico independente o que posso dizer..rsrsr Show de bola!!!! os músicos ja se desvincularam da ideia de que a gravadora é “o cristo que veio pra nos salvar” (srrs), agora precisamos convencer o público geral de que também existe qualidade no trabalho independente… abraços e parabens pela matéria.
brother na verdade eu queria saber como ´=e possivel a minha banda fazer parte dessa produtora/
e antes de qualquer resposta eu queria pedir humilde mente q vcs dessem uma sacada no material da galera muito obrigado pela atenção valeu Cristiano de Queiroz Ferraz
[...] do mundo, é o festival brasileiro mais antenado com uma grande mudança global: os novos caminhos da música - tanto que, no ano passado, dei um duro danado para cobrir o evento para uma matéria com [...]

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Bacana a matéria, embora eu esteja na condição suspeita de um dos entrevistados.
Mas entrei aqui pra comentar o seu podcast, que ficou bem bacana. []’s!