Nem toda nudez será castigada: “Baixio das Bestas” e “Educação Sentimental do Vampiro”
Nos tempos da chanchada, era quase impossível assistir a algum filme nacional sem ver algum corpo nu. Mesmo hoje em dia, com tanta bunda a mostra nos programas de entretenimento e com a estridente “luta” contra a baixaria na TV, as artes dramáticas mantém seu “direito” ao nu quase intacto – à exceção, é claro, daquelas gratuitas que visam aumentar a audiência. A nudez dramática, artística, é bem aceita pela sociedade. É como se, desse modo, ousássemos ignorar as regras que nós mesmos criamos, mostrando assim o que de mais humano existe: o próprio corpo e alma de cada um.
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A tentativa de mostrar o que há por debaixo das cascas que expomos, o mais íntimo e secreto de nossa personalidade, é o mote para a nudez em “Educação Sentimental do Vampiro”, peça em cartaz no Teatro Popular do Sesi, na Av. Paulista. Inspirada em contos de Dalton Trevisan, o espetáculo – dirigido por Felipe Hirsch – é duro e pesado ao mostrar, incansavelmente, situações de frustração sexual e de relacionamentos, de ânsia e desejo, de nojo e pavor. É constrangedoramente humana, tentando retratar os vampiros de um povo quase incomunicável (cujo extremo é o próprio Dalton) como o da cidade de Curitiba, que se escondem da luz do dia, mas tomam a cabeça e o corpo durante cada minuto da noite.
Nesse aspecto, como perfil psicológico, a peça montada pela Sutil Companhia de Teatro acerta em cheio e as soluções teatrais encontradas pelo diretor – como na cena do cinema, que é aterrorizantemente envolvente - são louváveis. O nu constrange, dá dramaticidade, mas, por diversas vezes, parece excedente. Tudo, aliás, excede um pouco o esperado, seja pelo ritmo arrastado e lento, pelo grande número de contos interpretados (18 no total), pelo mosaico macabro de sentimentos mal resolvidos, ou pelo tom predominantemente desesperado e desesperante. Exatamente ao jeito de Dalton Trevisan, cujos personagens não poderiam ser melhor interpretados – os atores dão um show. É um bom espetáculo, embora pesado e cansativo. Não me agrada muito o humor mais aparente e óbvio ali presente, mas me fascina o drama que as risadas do auditório quase ocultam. Impressionante como o sexo pode alterar vidas, transformar em vampiros aqueles quem não conseguem se resolver.
Falta de rumo, ausência e sexualidade problemática também são o assunto de “Baixio das Bestas”, cuja nudez é absurdamente exposta e, por vezes, gratuita e desnecessária. Buscando mergulhar na miséria humana e revelar a condição da mulher no nordeste brasileiro, o diretor Claudio Assis trabalha a podridão do desejo sexual desenfreado e doentio, traçando os contornos dos caminhos da sobrevivência na Zona da Mata pernambucana: a exibição do maracatu, o trabalho na cana-de-açúcar ou a prostituição.
As três vertentes estão presentes e se entrecruzam, mas a prostituição é a tônica do filme, que até consegue questionar valores morais e éticos. A fotografia é belíssima e a condição da mulher no interior do agreste brasileiro representada pela obra é revoltante. O problema é que, ao final da chocante película, uma pergunta fica na cabeça: tudo isso era realmente necessário? De verdade, tive a sensação de que o filme não mostrou a que veio. É uma coleção de nus, cenas violentas e de sexo (e orgia, estupro, sodomia, masturbação…) que realmente causam desconforto e um certo pânico daquela triste realidade de subsistência e exploração, que, ainda assim, não se justificam dentro da história. Sobra muita coisa. A denúncia social acaba sendo escondida pela enchente de nudez e sexo, que, no fundo, move todos aqueles personagens em busca de sobrevivência: os que querem sexo, os que vendem sexo, os que são explorados pelo sexo, e os que morrem pela combinação dos outros três tipos.
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Essas reconstruções, realistas ou não, da verdade humana do sul e do nordeste brasileiro, são um soco no estômago da sociedade e exigem bastante do espectador, que além de ter o estômago forte (o soco realmente dói, principalmente no filme) precisa estar preparado para repensar o que está por trás de suas ações. Um personagem de “Baixio” diz: “Tá sentindo um cheiro estranho? É a podridão do mundo”. É isso que o espectador sentirá ao assistir às obras: a beleza e a podridão da humanidade, que por um motivo ou outro, continua sem encontrar o equilíbrio de sua existência íntima e social.
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Educação Sentimental do Vampiro
Local: Teatro Popular do SESI - Avenida Paulista, 1313 - Metrô Trianon-Masp
Temporada: de 11/04 a 18/11 de 2007 - de quarta a domingo, às 20 horas.
Duração: 150 minutos
Recomendação etária: espetáculo não recomendado para menores de 16 anos.
Capacidade: 456 lugares
Informações: (11) 3146-7405 / (11) 3146-7406
Entrada: R$ 3, às sextas-feiras e sábados; e franca, às quartas-feiras, quintas-feiras e domingos - A distribuição dos ingressos tem início a partir da abertura da bilheteria no mesmo dia do evento - Horário de funcionamento da bilheteria: quarta-feira, das 12 às 20 horas; quinta-feira, sexta-feira e sábado, das 12h às 20h30; domingo, das 11h às 19h30. São distribuídos dois ingressos por pessoa.
Compare Preços: Dalton Trevisan, Claudio Assis, Lost, Desperate Housewives, Greys Anatomy, 24 Horas



