Jornalismo, Opinião, Resenhas
Livro “Abusado”: O lado humano do tráfico de drogas
Compare preços do Livro Abusado e de outros escritos por Caco Barcellos
“Traficante Marcinho VP é morto em presídio”, noticiou o jornal Folha de S.Paulo, em 29 de julho de 2003. O assassinato acontecera na tarde do dia anterior, no presídio de segurança máxima Bangu III, na zona oeste do Rio de Janeiro. Marcinho VP, um dos traficantes mais conhecidos do país, cumpria pena de 25 anos de prisão, mas foi morto por bandidos rivais, descontentes com suas declarações em um livro. Seu corpo foi encontrado por agentes penitenciários dentro de uma lixeira, coberto pelos livros que VP gostava de ler. Entre eles, estava “Abusado – O Dono do Morro Dona Marta”, romance-reportagem de Caco Barcellos, que teria ocasionado sua morte.
O morro Dona Marta, um dos lugares de maior concentração humana do mundo, e seu dono, Marcinho VP – chamado na obra de Juliano –, são os protagonistas do terceiro livro de Barcellos, jornalista consagrado principalmente por suas reportagens investigativas. É exatamente isso que ele faz em “Abusado” (Editora Record, 2003), vencedor do Prêmio Jabuti em 2004, onde convida o leitor a subir o morro carioca e entrar em contato com pessoas e situações que normalmente só a imprensa sensacionalista mostra. Entretanto, o principal mérito do livro é exatamente diferir da postura normalmente adotada pela mídia, não focando nas mortes e nos crimes, mas na sobrevivência do “lado certo da vida errada”. O resultado é extremamente interessante e é, certamente, um dos maiores registros históricos da vida na periferia da sociedade brasileira.
Fruto de mais de 4 anos de apuração – a obra resulta do árduo trabalho de ouvir centenas de depoimentos, coletar informações, cruzá-las e tentar checá-las nos órgãos oficiais -, “Abusado” conta, do ponto de vista dos moradores da favela, a vida e ascensão de Juliano VP ao cargo de maior poder no Morro Dona Marta, localizado a menos de 300 metros da prefeitura carioca. Acompanhamos sua vida desde a infância, onde já demonstrava vocação para o crime, passando pela adolescência, por sua entrada no tráfico de drogas, pelo amadurecimento e pelas primeiras ações como guerrilheiro até chegar na conquista do Morro, na ocupação do território pelo Comando Vermelho – do qual fazia parte -, por sua atuação como líder comunitário, pelo envolvimento com intelectuais brasileiros e por suas fugas cinematográficas, terminando na prisão em Bangu, onde VP acabou morrendo, apenas dois meses após a publicação do livro.
Mas “Abusado” não é apenas um registro da história do tráfico e da criminalidade. O livro fala, sobretudo, de pessoas, mergulhando fundo para se explicar como tudo aquilo se formou. Juliano / Marcinho é um personagem fascinante, com nuances e ideais, além de gosto por música clássica e por literatura e filosofia. É tão cativante e carismático que captura o leitor e o faz se surpreender ao perceber que, a certo ponto, está torcendo pelo bandido. Bem e mal se confundem e tangenciam, e a ação policial e o panorama traçado por Barcellos fazem com que nos questionemos se somos nós as vítimas daqueles atos criminosos – o que o livro em nenhum momento nega – ou se são eles, os moradores do morro, as vítimas de uma sociedade e de um governo omisso e desastrado. Afinal, quem são os heróis e os bandidos em uma situação tão confusa como aquela?
É consternador perceber, com a penetração do autor em uma camada mais profunda e menos óbvia daquele mundo “paralelo”, que várias daquelas pessoas estão no crime apenas para conseguir manter, um dia, uma vida honesta e chegar ao fim dela com dignidade – mesmo que este venha a acontecer rapidamente.
Dá a sensação de que o problema da violência e do narcotráfico nunca terá um fim, já que, quando um líder morre ou é preso, é rapidamente substituído, e, com alguns ajustes, tudo continua a funcionar normalmente. Os moradores da favela têm que conviver com aquela realidade, sobrevivendo como podem, abandonando tudo a qualquer momento. Nesse aspecto, “Abusado” traz a tona uma vida que sempre está insegura, de passagem, e, apesar de uma forte união aparente, é solitária. Quem lá vive não tem nenhum lugar no mundo, nem nos barracos, nem no asfalto. Vivem na clandestinidade – muitas vezes sem nem seus documentos reais – mesmo quando seguem adiante, para uma vida mais “digna” fora dali. É como se, apenas por nascerem na favela, mantivessem um elo eterno com a criminalidade.
“Abusado” é uma grandiosa reportagem que tenta se manter o mais imparcial possível. As ricas descrições, o estilo de narração e as tramas contadas tiram o ar e despertam comoção, raiva, solidariedade e vertigem. Sentimentos contraditórios – como a “vida errada” é -, que nos fazem compreender melhor todo aquele universo que, na maioria das vezes, acompanhamos distantes, fadigados por nosso senso comum, que costuma dar mais atenção às luzes da favela do às pessoas que lá sobrevivem.
O livro só seria melhor se, ao fecharmos, tivéssemos a certeza do fim daquela triste história de exclusão social e falta de oportunidade que, de forma alguma, terminou na lixeira junto ao fascinante Marcinho VP. A ficção cairia bem se fosse verdadeira. Não é, por isso a realidade (já no começo da obra, o leitor certamente se questionará sobre como toda aquela história foi reconstruída, o que o autor explica na última parte da obra) torna “Abusado” tão interessante.
Além da óbvia qualidade jornalística, com material riquíssimo sobre a história do tráfico e das facções criminosas – como o Comando Vermelho, de Juliano -, o que encanta no livro de Caco Barcellos é a sua sensibilidade de mostrar as tonalidades do relacionamento humano – como a grande amizade da Turma da Xuxa e, especialmente, com Luz e Kevin – e o que há por trás de mitos contemporâneos, mostrando que há bondade, inteligência, sensibilidade e fraqueza por traz daqueles que, pelas manchetes dos jornais, parecem monstros irracionais e inescrupulosos.
Desse modo, “Abusado” nos incita uma perturbadora reflexão diante de nossas opiniões e conceitos, utilizando aquele mundo aparentemente distante para falar do que há de mais íntimo: as nossas próprias verdades, que, com ele, serão estremecidas. Imperdível, até porque, parece, nunca deixará de estar atual. Você já viu o noticiário de hoje?
Sua visão sobre o tráfico e os traficantes com certeza mudará após ler esse livro. A minha, definitivamente, é outra.
[BL]Livro Abusado, Livros de Caco Barcellos[/bl]
