por Gustavo Jreige / 30 Jul
Sempre me vejo em meio à imbecil polêmica “blogs x jornalismo”. Como normalmente amo e acredito em ambos, fico achando que os únicos inadequados são os que entram na discussão.
Desde aquele fatídico texto do Digestivo Cultural (faz tempo, hein?), que o Cardoso, meticuloso, me recomendou, venho ficando mais atento a essa desconfiança toda entre ambos, que, ao meu ver, mostra-se infundada em todas as instâncias.
Alguns jornalistas vêem os blogueiros como amadores querendo brincar de fazer notícia, em um “show de calouros” (© Márion Strecker). Alguns blogueiros vêem a mídia como um demônio ultrapassado, desprezando-a ou rindo de seu comportamento e modus operandi, como se fossem superiores.
Não tenho certeza de que são minorias não, mas com certeza não é a totalidade que vê as coisas desses modos absurdamente equivocados. Acredito realmente que amadores não podem ser jornalistas, e os blogs nacionais ainda são fracos fornecedores de informação. Também acredito piamente que blogueiros sabem lidar muito melhor com a audiência do que os jornalistas, penando e aprendendo muito mais com seus leitores do que qualquer profissional do jornalismo aprende com um manual de redação ou ombudsman – além de possuírem uma liberdade de emitir opinião que qualquer homem de jornal sonharia ter.
Agora, não é porque o cidadão comum não pode fazer jornalismo (simples: ele não está habilitado tecnicamente para isso), que não pode ser repórter de seu cotidiano. Eis o primeiro híbrido de blogs e jornalismo: o que convenientemente chamamos de “citizen journalism” – ou quase isso. Também não é porque jornalistas estão mesmo acostumados com uma estrutura mais engessada, menos direta e participativa, que eles não podem se acostumar e ter interesse nesse novo tipo de mídia, feita por usuários. Uma coisa não impede a outra.
As mídias vêm se misturando, sem prejuízo para nenhuma delas. Pelo contrário. Qual blog não se alimenta de material produzido pela mídia de massa? A recíproca também é cada dia mais verdadeira, evidentemente. Cada veículo tem sua função dentro de um sistema que tende, sim, ao excesso de informação.
Esse artigo aqui começou a ser escrito ontem, mas a Folha de S.Paulo, mais uma vez, trouxe o assunto semelhante em sua edição de hoje. Em entrevista de capa do caderno Ilustrada, cuja manchete é “Ataque à blogosfera”, o historiador britânico Andrew Keen, que lançou recentemente nos EUA o [BP]livro “The Cult of the Amateur: How Today’s Internet Is Killing Our Culture”[/BP] (isso mesmo: “A cultura do amador: Como a internet de hoje está matando nossa cultura”), diz que a web 2.0 não está democratizando a mídia coisa nenhuma, mas “que acontece o oposto: a mídia tradicional fornece informação de qualidade acessível às massas e não acho que a segunda geração da web esteja reproduzindo isso.”
Polêmico e radical, não? Pois é, mas infelizmente eu tendo a concordar com parte disso: nos meios colaborativos atuais, o que mais importa é o próprio usuário e sua experiência, não a informação em si. O que, por si só, já é bem interessante.
Eu me interessei principalmente pela resposta da última pergunta, onde ele justifica o fato de ter um blog: “Meu livro não defende que as pessoas não tenham blogs, apenas que não finjam que são substitutos da mídia tradicional ou representantes de fontes de informação confiáveis sobre o mundo.”
Atenho-me somente ao “não finjam que são substitutos da mídia tradicional” e ignoro que ele acredite que não somos “fontes de informação confiáveis sobre o mundo” (e por acaso quem é? Desculpa, mas depois de Jayson Blair, eu não sei!).
Realmente não somos substitutos de nada. Nós complementamos o que já existe – e dessa forma, tudo vai ganhando novas funções e nada se perde.
Vejo os blogs e toda a perspectiva de jornalismo colaborativo (perspectiva porque ainda não o temos de fato, só vejo repercussão do jornalismo profissional por aí…) se aproximando muito, num primeiro momento, do antigo “new journalism”, em que o repórter basicamente relatava o que vivenciava. Ou quase isso.
É que lembro do repórter brasileiro David Nasser, da revista O Cruzeiro, que, em busca de uma boa história a ser contada (e, claro, de uma boa vendagem), inventava situações, aumentava os fatos e, reza a lenda (ou a história, contada no [bp] livro “Cobras Criadas”[/bp]) chegou até mesmo a se vestir de mulher, fingindo ser outra pessoa, para ilustrar uma reportagem chocante. Como dizem, ele era o homem que inventava a notícia.
Ora essa, é ou não é o que muito blogueiro faz brigando por aí na blogosfera ou nos meios virtuais? É ou não é o mesmo que motiva um sujeito a mandar uma foto do acidente da TAM adulterada para um portal (aquele, do “show de calouros”)?
Fora que o estilo de narração é semelhante…
Os blogueiros podem reclamar dos jornalistas, mas se parecem com eles em diversos pontos. E os jornalistas estão descobrindo a melhor forma de lidar com esse novo produtor de informação e se adequar para as mudanças que estão nitidamente acontecendo. Onde reside o conflito?
A mistura dos dois é bem-vinda, desde que aconteça com inteligência, respeito e planejamento. Assim não haverá morte da cultura, da imprensa ou da espontaneidade de ser um cidadão, mas uma otimização das informações na rede e fora dela, confiando em um número maior de pessoas – até porque, naturalmente, os conteúdos vão mesmo ficando mais seguros.
Acho que está na hora de abrirmos a cabeça – e eu, como blogueiro e jornalista em formação, estou com ela em constante conflito – e perceber o que há de bom em cada um dos dois mundos (que, convenhamos, são irmãos).
Deixa disso, galera. O Estadão não está atacando os blogs por dizer que nem tudo na rede é confiável… Ele só quer dizer que ele mesmo está melhor – exatamente por adquirir características da blogosfera!
Rixa boba, que pode ser resolvida numa mesa de bar. Ou na BlogCamp.
A reportagem escolhida foi sobre uma descoberta minha: Duas meninas que trabalhavam na limpeza do lugar onde o evento foi realizado foram convidadas pela equipe do Sony para tentarem ser modelos e participar do programa.
Você deve ter lido em algum outro blog que, na sexta-feira, dia 29 de junho, aconteceu em São Paulo o pré-lançamento do Fiz.TV, o novo canal televisivo do Grupo Abril. O evento tinha o objetivo de apresentar a emissora aos blogueiros e permitir que tirássemos nossas dúvidas a respeito dessa nova proposta, ainda um tanto mal compreendida por muitos, que insistem em rotulá-la de Youtube-killer ou bobeira do tipo. Não é o caso, nem de longe. Eu estive nesse encontro – que, aliás, me pareceu por diversas vezes uma mistura de coletiva de imprensa com a sociabilidade da Barcamp -, fiz perguntas ao Marcelo Botta, gerente de conteúdo do Fiz, e prestei bastante atenção em tudo que foi dito. Abaixo você poderá compreender melhor como será esse canal, que estreará no próximo dia 30, e ver as minhas impressões a respeito dessa proposta potencialmente inovadora.
Os vídeos serão divididos por temas ou gêneros, criando blocos, que serão os “programas” dessa emissora. É o caso do “Fiz.Anima”, de animações, o “Fiz.Caca”, só com vídeos trash, o “Fiz.Humor”, de vídeos de comédia, o “Fiz.curta”, com curtas-metragens, e o “Fiz.Doc”, com documentários, que podem vir, inclusive, do meio acadêmico. Isso mesmo: Totalmente colaborativa, a Fiz.TV não receberá apenas vídeos de internautas, mas já está realizando parcerias com universidades do país todo, além de festivais. Acho que daqui pode vir coisa bem interessante, dando espaço a produtos legais, mas que eram engavetados assim que o professor desse a nota ou a estatueta fosse para a prateleira. Só não sei se o público do canal – jovens, que consomem vídeos da web e gostam de inovação – apreciará um gênero mais sério como esse. Torço para que sim, pois é uma divulgação tamanha para a produção universitária nacional (que já vinha ganhando espaço com programas como o “Campus”, da TV Cultura).
As revistas da Editora Abril são parceiras potenciais da Fiz.TV. Já estão sendo elaboradas formas de interação, incentivando, por exemplo, os leitores da revista Superinteressante a gravarem vídeos sobre o tema da edição e mandarem para o site da emissora. Por enquanto não há nenhum plano de lançamento de uma revista Fiz, até porque o grupo já possui uma publicação colaborativa, a Sou+Eu, empreitada jornalística-popular de baixa renda.