Blogs e jornalismo: Amigos ou rivais?


Sempre me vejo em meio à imbecil polêmica “blogs x jornalismo”. Como normalmente amo e acredito em ambos, fico achando que os únicos inadequados são os que entram na discussão.

Desde aquele fatídico texto do Digestivo Cultural (faz tempo, hein?), que o Cardoso, meticuloso, me recomendou, venho ficando mais atento a essa desconfiança toda entre ambos, que, ao meu ver, mostra-se infundada em todas as instâncias.

Alguns jornalistas vêem os blogueiros como amadores querendo brincar de fazer notícia, em um “show de calouros” (© Márion Strecker). Alguns blogueiros vêem a mídia como um demônio ultrapassado, desprezando-a ou rindo de seu comportamento e modus operandi, como se fossem superiores.

Não tenho certeza de que são minorias não, mas com certeza não é a totalidade que vê as coisas desses modos absurdamente equivocados. Acredito realmente que amadores não podem ser jornalistas, e os blogs nacionais ainda são fracos fornecedores de informação. Também acredito piamente que blogueiros sabem lidar muito melhor com a audiência do que os jornalistas, penando e aprendendo muito mais com seus leitores do que qualquer profissional do jornalismo aprende com um manual de redação ou ombudsman – além de possuírem uma liberdade de emitir opinião que qualquer homem de jornal sonharia ter.

Agora, não é porque o cidadão comum não pode fazer jornalismo (simples: ele não está habilitado tecnicamente para isso), que não pode ser repórter de seu cotidiano. Eis o primeiro híbrido de blogs e jornalismo: o que convenientemente chamamos de “citizen journalism” – ou quase isso. Também não é porque jornalistas estão mesmo acostumados com uma estrutura mais engessada, menos direta e participativa, que eles não podem se acostumar e ter interesse nesse novo tipo de mídia, feita por usuários. Uma coisa não impede a outra.

As mídias vêm se misturando, sem prejuízo para nenhuma delas. Pelo contrário. Qual blog não se alimenta de material produzido pela mídia de massa? A recíproca também é cada dia mais verdadeira, evidentemente. Cada veículo tem sua função dentro de um sistema que tende, sim, ao excesso de informação.

Esse artigo aqui começou a ser escrito ontem, mas a Folha de S.Paulo, mais uma vez, trouxe o assunto semelhante em sua edição de hoje. Em entrevista de capa do caderno Ilustrada, cuja manchete é “Ataque à blogosfera”, o historiador britânico Andrew Keen, que lançou recentemente nos EUA o livro “The Cult of the Amateur: How Today’s Internet Is Killing Our Culture” (isso mesmo: “A cultura do amador: Como a internet de hoje está matando nossa cultura”), diz que a web 2.0 não está democratizando a mídia coisa nenhuma, mas “que acontece o oposto: a mídia tradicional fornece informação de qualidade acessível às massas e não acho que a segunda geração da web esteja reproduzindo isso.”

Polêmico e radical, não? Pois é, mas infelizmente eu tendo a concordar com parte disso: nos meios colaborativos atuais, o que mais importa é o próprio usuário e sua experiência, não a informação em si. O que, por si só, já é bem interessante.

Eu me interessei principalmente pela resposta da última pergunta, onde ele justifica o fato de ter um blog: “Meu livro não defende que as pessoas não tenham blogs, apenas que não finjam que são substitutos da mídia tradicional ou representantes de fontes de informação confiáveis sobre o mundo.”

Atenho-me somente ao “não finjam que são substitutos da mídia tradicional” e ignoro que ele acredite que não somos “fontes de informação confiáveis sobre o mundo” (e por acaso quem é? Desculpa, mas depois de Jayson Blair, eu não sei!).

Realmente não somos substitutos de nada. Nós complementamos o que já existe – e dessa forma, tudo vai ganhando novas funções e nada se perde.

Vejo os blogs e toda a perspectiva de jornalismo colaborativo (perspectiva porque ainda não o temos de fato, só vejo repercussão do jornalismo profissional por aí…) se aproximando muito, num primeiro momento, do antigo “new journalism”, em que o repórter basicamente relatava o que vivenciava. Ou quase isso.

É que lembro do repórter brasileiro David Nasser, da revista O Cruzeiro, que, em busca de uma boa história a ser contada (e, claro, de uma boa vendagem), inventava situações, aumentava os fatos e, reza a lenda (ou a história, contada no livro “Cobras Criadas”) chegou até mesmo a se vestir de mulher, fingindo ser outra pessoa, para ilustrar uma reportagem chocante. Como dizem, ele era o homem que inventava a notícia.

Ora essa, é ou não é o que muito blogueiro faz brigando por aí na blogosfera ou nos meios virtuais? É ou não é o mesmo que motiva um sujeito a mandar uma foto do acidente da TAM adulterada para um portal (aquele, do “show de calouros”)?

Fora que o estilo de narração é semelhante…

Os blogueiros podem reclamar dos jornalistas, mas se parecem com eles em diversos pontos. E os jornalistas estão descobrindo a melhor forma de lidar com esse novo produtor de informação e se adequar para as mudanças que estão nitidamente acontecendo. Onde reside o conflito?

A mistura dos dois é bem-vinda, desde que aconteça com inteligência, respeito e planejamento. Assim não haverá morte da cultura, da imprensa ou da espontaneidade de ser um cidadão, mas uma otimização das informações na rede e fora dela, confiando em um número maior de pessoas – até porque, naturalmente, os conteúdos vão mesmo ficando mais seguros.

Acho que está na hora de abrirmos a cabeça – e eu, como blogueiro e jornalista em formação, estou com ela em constante conflito – e perceber o que há de bom em cada um dos dois mundos (que, convenhamos, são irmãos).

Deixa disso, galera. O Estadão não está atacando os blogs por dizer que nem tudo na rede é confiável… Ele só quer dizer que ele mesmo está melhor – exatamente por adquirir características da blogosfera!

Rixa boba, que pode ser resolvida numa mesa de bar. Ou na BlogCamp.

Compare Preços: livro “The Cult of the Amateur: How Today’s Internet Is Killing Our Culture”, livro “Cobras Criadas”, Lost, Desperate Housewives, Greys Anatomy, 24 Horas

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Comentários de leitores

Eu canso de ver jornais mesmo em edições online levando horas (ou dias) para divulgar informações que saem em blogs, e NUNCA vejo blogs fazendo follow-up de nada.

Os dois meios têm estruturas diferentes, estilos diferentes e objetivos diferentes.

Pura besteira esse discurso “os jornais estão mortos, o futuro é dos blogs”. Se um blog crescer o bastante para se tornar uma referência geral de notícias como um jornal, terá que contar com uma estrutura indistinguível de uma redação convencional. Seja distribuída ou não.

Ola’, Gustavo, agradeco o feedback, mas acho que estamos, mesmo, vivendo uma guerra: internet versus midia tradicional. Nao se esqueca de que o Estadao tambem atacou a blogosfera recentemente: http://ecarvalho.typepad.com/eduardo_a_de_carvalho/2007/07/para-quem-serve.html

Coincidência que tem a ver em parte com este seu post, no domingo, zapeando a televisão, vi um trecho de um filme onde o Kirk Douglas, interpretando um repórter que está tentando emprego diz ao provável empregador que vai atrás da notícia onde ela estiver. Se nada acontece de novo na cidade, procura na região e “se não encontrar nada, saio e mordo um cachorro’.
Todas as críticas que a mídia tradicional faz aos blogs podem ser feitas à mídia tradicional. Você, melhor do que eu, poderia listar diversos casos de notícias que não foram adequadamente checadas, ou que não tiveram o outro lado ouvido.
Todas as críticas que os blogs fazem à mídia tradicional, também podem ser feitos aos blogs. Com certeza, uma reclamação da Bia Kunze sobre uma operadora de celular, ou uma análise de um novo hardware ou software no Meio Bit vão influenciar os leitores muito mais do que textos semelhantes na Veja ou na Info.
Mais importante que uma briga infrutífera é que cada um entenda seu nicho e as duas formas de mídia se complementem. A sério, sem estresse e nem estrelismo, de nenhuma das partes. Aí ganham todos.

Eu fui um dos que ataquei a mídia tradicional nesses dias. E quer saber? me equivoquei. Eu e tantos outros. Não deveria existir tal briga e tem que ficar bem claro que blogs são blogs, e mídia é mídia. “Cada qual no seu um”, como diria um amigo.

Blogcamp é um ótimo lugar pra resolver isso, já que teremos blogueiros, jornalista, estudantes de jornalismo, e jornalistas blogueiros hahah

Abraço!

Também tenho acompanhado essa discussão toda e acho no mínimo “tola”. Excesso de “estrelismo”, de ambos os lados, está tornando o assunto enfadonho. Como disse o Enio Vedovelho, o importante “é que cada um entenda seu nicho e as duas formas de mídia se complementem… Aí ganham todos”.

Foi a coisa mais sóbria que li sobre o assunto até então.
A reação da blogosfera foi imediata à manchete “Ataque á blogosfera”, mas com 2ª e 3ª leituras, deixando o ego de lado, pode-se ver que as críticas de Keen tem lá sua razão de ser.
Neste ponto, a “mídia tradicional” mostrou que os blogs não são livres daquilo que tanto criticam: Os leitores de título. Eles próprios caíram na “armadilha”…

abraço