Uso de “bichês” e enquetes inúteis: O que a Folha Online pode melhorar
Todos nós nos identificamos com algumas marcas e passamos a nos relacionar com elas de maneira diferenciada, mais próxima e até mais passional. Com produtos jornalísticos a relação é ainda mais complexa, já que envolve a percepção e aceitação da credibilidade pelo consumidor e um contato mais longo entre marca e cliente, acontecendo, possivelmente, em diversos momentos do dia, todos os dias.
A minha marca preferida de jornal na rede é a Folha, em disparado. Leio na web, todos os dias, a versão, errr, impressa do jornal; sou assinante do UOL; acompanho a Folha Online e costumo utilizar bastante o seu “comunicar erros” – sendo sempre atendido com gentileza e rapidez.
É claro que, como jornalista essencialmente de web, também quero trabalhar lá, ou estagiar, ou coisa do tipo. Eu realmente gosto da Folha, bem mais do que de outros jornais (embora O Globo também faça um ótimo trabalho na rede). Simples assim.
E é exatamente por isso que me incomoda tanto as besteiras que a Folha Online faz.
Já devo ter reclamado por aqui dos “Destaques GLS”, escritos pelo Sérgio Ripardo, que também é editor-chefe da Ilustrada Online. Na época, eu dizia que aquilo deveria ser um blog e não ser veiculado como análise, dentro da editoria Ilustrada. Depois de um tempo, felizmente, transformaram em uma coluna.
O problema é que ela continua inapropriada. A linguagem é a tal “bichês”, que é um divertido diferencial de blogs gays, como o finado Papel Pobre, mas fica patética num site jornalístico voltado a todos os públicos. Não é preconceito, homofobia ou puritanismo, mas não entendo qual a necessidade de usar palavras como “necas” e expressões afetadas como “bofe-escândalo” para fazer uma coluna GLS.
Quando um humorístico faz uso de palavras e expressões clichês, os grupos GLS se ofendem. Oras, uma coluna na Folha Online que não pode ter a linguagem padrão do resto do site não acaba reforçando o tão combatido estereótipo?
Claro que não sou target, por isso nem posso opinar sobre os temas escolhidos, mas a abordagem – aspecto jornalístico – também é equivocada para um site noticioso (embora na última coluna, o Sérgio tenha acertado o tom). Óbvio que o site não precisa ser engessado e sem graça, mas existem formas e formas de se fazer humor, algumas bem informativas. Não é o caso.
Precisa, por acaso, dar 10 dicas “para evitar o vexame de ser pego com a boca na botija” fazendo “banheirão”? Notem o começo da coluna, mais jornalística, sendo interessante a qualquer tipo de público.
O tal do “banheirão” veio à tona por causa do senador americano, então é mesmo pauta. Informações sobre casos brasileiros e o que os shoppings estão fazendo para evitar a prática também são interessantes. Assim como a análise do Sérgio.
Pena que isso tudo fica resumido a dois parágrafos. Depois, vem dicas para não ser pego praticando. Qual é? Cadê o enfoque jornalístico? Esse tipo de conteúdo caberia em um site segmentado, com público restrito a interessados pelo assunto.
Claro que ninguém é obrigado a ler – eu mesmo não costumo -, mas isso não é desculpa. Por mais que a coluna seja GLS, ela não pode ser feita apenas para gays e, mais uma vez, deveria ter um interesse informativo ou opinativo antes de tudo, que complementasse o aspecto noticioso do site.
Esse é um dos principais pontos em que a Folha Online me irrita, esquecer o que ela realmente é: um site de notícias.
Tal esquecimento passa pela seção de interação da Ilustrada, com enquetes tão relevantes como “Qual a melhor substituta de Glória Maria?” (com o enunciado: “A apresentadora Glória Maria está em férias no “Fantástico”. Nesse período, ela será substituída por Patrícia Poeta e Renata Ceribelli, que vão se revezar na função. Qual das duas você prefere?”) e “Qual a melhor de Amy?” (cujo o enunciado diz: “Amy Winehouse protagonizou, neste mês de agosto, notícias sobre internação por conta de overdose. Qual sua música preferida da cantora inglesa?”).
Nessa enquete aqui, é para responder qual o personagem mais legal de “Desperate Housewives”. Então por que o enunciado é “A Rede TV! estreou, neste mês de agosto, uma versão brasileira do seriado norte-americano “Desperate Housewives“. Qual a personagem feminina mais interessante da série?”? Afinal, é o personagem mais legal de “Desperate ou de “Donas de Casa Desesperadas”? Se for da brasileira, por que os nomes são os dos personagens norte-americanos?
Dá para ficar ainda pior! Olha a enquete que foi a publicada hoje:
Pérolas
Qual a pior frase das últimas semanas no mundo das celebridades?( ) A indústria da fofoca esqueceu de mim” - Daniella Cicarelli, ex-ronaldinha, no programa de Jô Soares (Globo)
( ) “Oh, my God” - Gisele Bündchen, top model brasileira entediada, durante o lançamento de um xampu em São Paulo
( ) “Ééééé” - Irislene Stefanelli, apresentadora do “TV Fama” (RedeTV!), e sua introdução a qualquer frase
( ) “Xuxa pecou” - Mara Maravilha, ex-apresentadora de programas infantis e ex-capa da “Playboy”, sobre a participação da colega loira no filme proibido “Amor Estranho Amor”
( ) “Um ‘Zé Mané’ teria levado o túmulo dos Matarazzo” - Ronaldo Ésper, estilista, após ser inocentado da acusação de furtar vasos de um cemitério paulistano
Qual é a utilidade? Pra quê isso?
As de outras editorias são realmente bem pensadas e contém debates relevantes, questionando a população sobre temas polêmicos do noticiário, como “Na sua opinião, o senador Renan Calheiros vai conseguir ser absolvido no processo por quebra de decoro parlamentar no plenário do Senado?” e “Depois da norte-americana Mattel, foi a vez da fabricante brasileira Gulliver anunciar um recall de brinquedos fabricados na China. Depois disso, você passou a se preocupar com os itens fabricados no país asiático?”
Custava pensar um pouco mais ao elaborar as enquetes da Ilustrada? Só porque é de cultura (opa, você lembra? CULTURA! Não entretenimento, fofoca ou futilidade!) não pode falar sério?
Pode e deve. Acho que aqui há confusão de conceitos. Interatividade por si só é vazia e sem utilidade. Ela precisa de propósito, de dedicação, de atenção, de um porquê.
Ter só para ter é besteira. Interatividade e colaboratividade não são apenas marcas de modernidade. São recursos absolutamente ricos, que podem agregar muito valor ao conteúdo produzido pelos jornalistas e colunistas.
Como consumidor, que gosta muito da Folha, eu lamento esses erros bobos – e, por isso mesmo, tão fáceis de arrumar. Humildade, sem dúvida nenhuma, o Ricardo Feltrin tem para assumir um erro e melhorar. Basta tais erros saltarem aos seus olhos.
E você, concorda comigo? Tem alguma coisa que te irrita?
E os leitores gays, o que acham da coluna “Destaques GLS”?
Compare Preços: Desperate Housewives, DVD, LCD, Plasma, HDTV, Home Theater
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Comentários de leitores
Em resposta a pergunta final do post… acho essa coluna “extremamente desnecessária”
Bytes disperdiçados, não mais que isso.
Só serve para criar cada vez mais uma enorme fenda entre as pessoas.




Parabéns pelo texto, Gustavo. Como sempre, direto ao ponto.
Eu gosto muito da folha, é o único jornal que eu ainda mantenho nos meus feeds. Mas admito que de vez em quando tem algumas pisadas de bola que desanimam.
Você citou a Ilustrada, é onde mais acontece. Na minha opinião, a idéia de “cultura” foi definitivamente trocada por “entretenimento”. Mas às vezes tem umas pisadas feias, também, em outras editorias, em especial na de informática.