por Gustavo Jreige, Júlia Aronchi e Vinícius Saccomani / 12 Ago
Imagine ter um orgasmo após receber chutes. Transar por mais de uma hora e não gozar. Sentir um prazer tão intenso que ajude a conhecer melhor seu próprio corpo e, assim, curar uma doença. Isso tudo é mais comum do que você imagina.
O prazer sexual é importante e útil e as pessoas procuram por ele de diferentes formas. “Pesquisas do início do século XX apontam para o fato de que satisfação sexual se associa estatisticamente, de modo inequívoco, à felicidade. As atividades sexuais facilitam o melhor funcionamento físico e mental”, explica o psicólogo Oswaldo Martins Rodrigues Jr., membro do conselho consultivo da Associação Mundial para a Saúde Sexual (WAS, na sigla em inglês).
As formas de obter esse prazer variam e podem ser pouco convencionais. “Eu já gozei só com uma pessoa jogando vela em mim. Comigo não é sempre que tem o sexo convencional”, conta Bela, 42, praticante de BDSM – Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo – há 11 anos e dona do maior e mais conceituado espaço do gênero da América Latina, o Clube Dominna, em São Paulo.
SEM RELACIONAMENTOS, COM ESCRAVOS
Hoje, para ela, não existe sexo sem sadomasoquismo, mas existe sadomasoquismo sem sexo. “Uma sessão de SM sem penetração desenvolve a libido a ponto de só uma chicotada já fazer a pessoa gozar”, explica.
Ela é dominadora e seu prazer vem da relação de servidão. “Tenho um escravo que já esta a caminho e outra que está lá embaixo varrendo o chão pra mim. Tudo o que facilita a minha vida é um ponto positivo pra eles e me traz prazer”, conta Bela.
A escrava que varria o chão, Léo, 45, é professora de matemática – motivo pelo qual ela não mostra o rosto, como você pode conferir no vídeo acima. “Servir integralmente à Bela, fazer todas as vontades e tudo o que ela manda, até varrer o chão, me dá prazer, o mesmo prazer de uma transa convencional”, diz.
Os tapas, chicotadas e gotejamentos de velas fazem parte do BDSM, que vai além. A cena mais avançada que Bela já fez e se deixou fazer é a sutura vaginal. “É isso, passar a agulha pelos lábios vaginais. Mas com todos os cuidados cirúrgicos. A sensação foi maravilhosa, pensar que foi lacrado por você, porque você quis e que agora ninguém toca. Dá vontade de lacrar para sempre”, explica ela. Nessa prática, a mulher passa a ter dificuldade para urinar por alguns dias e quando o consegue fazer, arde.
“Casamento baunilha pra mim é o fundo do poço”
Bela.
Bela não é casada e diz que jamais teria uma relação baunilha – gíria que define um casal que só pratica sexo convencional – “Minha opção é ser solteira porque não gosto de ficar presa a nada”, afirma.
Mesmo assim, Bela se relaciona com vários escravos fixos, homens e mulheres, casados ou solteiros. É da relação de dominação e servidão que vem o prazer sexual. “Se eu ligo às três da manhã para um escravo é um prazer pra ele vir me servir. Já escravos casados, eu respeito até um ponto: Se eu marco a cena ou peço algo, e ele não vem porque, por exemplo, bateu o carro, eu o perdoo. Mas se ele deixou de me servir para ir ao cinema com a mulher, aí vai ter castigo”, diz Bela.
“Para mim, em qualquer transa haverá jogo de dominação, ainda que somente em minha cabeça. Não sinto tesão sem isso”
Bela.
O PRAZER DA DOR
Giancarlo Spizzirri, psiquiatra e professor de especialização em sexualidade humana da Universidade de Medicina da USP, explica que, para algumas pessoas, o ato de sentir ou provocar dor e humilhação é interpretado como prazer por conta do contexto da atividade sexual em que elas estão inseridas naquele momento.
“Neste momento a conotação de mal estar não existe, é até agradável”, explica Giancarlo. No entanto, se essas mesmas pessoas estiverem inseridas em outra situação que não envolva a atividade sexual, elas sentirão dor como qualquer outra.
Segundo o professor, uma pessoa sádica, não necessariamente apresenta comportamento sádico fora da atividade sexual. Mas como o sexo faz parte do cotidiano das pessoas, pode ser difícil separar uma coisa da outra ¬– é o que acontece com Bela, por exemplo.
As práticas sexuais tidas como não convencionais são conhecidas, em termos médicos, como transtornos de preferência sexual (TPS) ou parafilias que vão desde o BDSM ao fetiche por balões (isso mesmo, pessoas que se excitam com bexigas infláveis).
“Há 20 homens parafílicos, para cada uma mulher”
professor Giancarlo.
PRA QUÊ GOZAR?
“Não ter orgasmo prolonga a sensação de erotismo. Quando se goza, acabou ali”, acredita Bela. Talvez esse seja o único ponto em comum entre a dominadora e Gustavo Gitti, 27, que pratica meditação desde 2001. “Orgasmo é uma coisa brochante”, brinca.
“Sinceramente? Eu tenho mais prazer antes do orgasmo do que no momento em que ele acontece”. “Adoro deixar o tempo expandir. Estou brincando ultimamente para ver qual é o meu limite, até quando consigo segurar. Gosto de saber que eu gozava num ponto que eu não gozo mais”, diz ele, que com práticas como a meditação e aulas de dança de salão adquiriu um autoconhecimento que lhe rendeu influências até na vida sexual.
“Ter essa autonomia de energia faz com que se possa levar a transa a outros lugares. Só vai ser transformador se o prazer for além”, acredita o rapaz, que relata já ter vivido, antes de conseguir se controlar, momentos de prazer tão intenso que fez com que ele visse luzes, passasse mal e até mesmo quase desmaiasse.
Gitti acredita que o sexo amplifica seus sentidos e emoções – positivas e negativas. “Em mais nada temos essa força”, defende. Para ele, toda experiência sexual tem que gerar prazer e ser libertadora, e não somente a penetração. “Se você quer mudar sua experiência sexual, a última coisa que você deve focar é no sexo. Não sigo manual, acho que não funciona”, diz Gitti, que é formado em filosofia e atualmente edita o blog ‘Papo de Homem’ e é autor do ‘Não2Não1’.
O único requisito é não ter limites. “Para rolar, não pode ter pudores. Tem que estar livre, como eu. Se ela está com pé atrás, ela não fica realmente presente, isso é limitante, não é satisfatório”, explica. “A única restrição que eu aceito é a dor negativa.”
QUANDO A DOR TIRA O PRAZER
Lucimara Riva, 31, buscou durante anos a ajuda de médicos que pudessem receitar a cura da infecção urinária que a fazia sangrar constantemente, sentir muita dor e, conseqüentemente, ter uma vida sexual praticamente nula. Depois de passar por exames e tratamentos com diferentes medicações, Lu – como gosta de ser chamada -, não obteve nenhum resultado efetivo. Foi aí então que conheceu o pompoar, uma arte milenar, originária da Índia.
A prática do pompoarismo consiste no fortalecimento da região pélvica através de exercícios com os anéis do canal vaginal. Com eles, Lu deixou de sentir dores, sangrar, e passou, como diz seu marido, Adriano Riva, “de uma vida sexual praticamente nula, para uma turbinada”. O “turbo” aconteceu quando Lu, praticando os movimentos do pompoar durante a relação sexual, estrangulou o marido – prática que consiste em segurar a ejaculação masculina somente com a contração do canal vaginal.
“A mulher pompoarista prende seu homem”
Lu Riva.
Com a prática, mulheres que tem dificuldade de alcançar o orgasmo, ou que sofrem pela falta ou ausência de libido, conseguem até mesmo chegar à ejaculação feminina. “Isso aconteceu com uma aluna de 67 anos que nunca tinha alcançado um orgasmo”, conta Lu, ex-publicitária que hoje é professora da técnica em academias e residências. Dona da empresa Lu Pompoar e autora do livro “Pompoar: Sexo e Saúde”, compartilha, por meio do livro, sua história além de oferecer um diário de treinamento mensal com 70 exercícios.
Adriano, que também é o gerente comercial da marca Lu Riva, afirma que, para ele, ter uma esposa pompoarista é muito normal. “Sinceramente, faz muito bem ao ego”, orgulha-se. E completa com bom humor: “Eu sou cobaia, então se ela tem uma novidade, a gente testa (risos)”.
Adriano, que sempre está junto da esposa, vai se formar como massagista tântrico e quer poder levar cada vez mais conhecimento ao que passou a ser um negócio. “O nosso trabalho não é convencional, mas é muito sério”, esclarece. Lu desmistifica: “Não é uma questão de vagina explosiva, como a gente ouve falar por aí. Isso não existe, vagina é vagina”.
A prática do pompoarismo mudou a vida sexual dos dois. “É só alterar o movimento vaginal que não tem rotina”, completa Lu.
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