por Gustavo Jreige, Júlia Aronchi e Vinícius Saccomani / 10 Set
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Você deve conhecer pelo menos uma pessoa que em algum momento da vida tenha ido morar em outro país. Se ainda não conhece, irá conhecer. Isso porque o número de brasileiros residentes fora tem aumentado a cada ano. Segundo uma pesquisa do Ministério das Relações Exteriores (MRE) denominada “Brasileiros no Mundo – Estimativas”, esse número é impressionante. São 3.040.993 brasileiros espalhados por 117 países. Esse número é maior que toda a população do estado do Rio Grande do Norte.
O levantamento é baseado em informações locais junto às embaixadas, ou seja, refere-se apenas aos imigrantes legais. O próprio ministério admite que há limitações na pesquisa pelo fato de muitos brasileiros viverem em situação irregular e, consequentemente, não procurarem consulados ou embaixadas do Brasil temendo ser descobertos e repatriados. O número, então, é muito maior que esse. Mais de três milhões de pessoas saindo do país, mudando de cultura, de hábitos, de valores, entrando em um outro grupo social, na maioria das vezes desconhecido. Mas será que essas pessoas estão preparadas para tamanha mudança de vida?
“A pessoa possui uma série de fantasias quando está indo para outro país. Quando se depara com a realidade, a experiência pode acabar sendo bastante angustiante”, explica a psicóloga Laura Ueno. Durante sete anos, Laura integrou uma equipe da USP formada por profissionais da área de psicologia que ajudava pessoas a lidarem com o choque ao encontrar culturas diferentes. O Serviço de Atendimento Intercultural, como era chamado, auxiliava não só pessoas que saíam do Brasil, mas também as que voltavam de outros países, além de estrangeiros que aqui vinham morar. “Nos atendimentos a gente percebia que os maiores problemas estavam aqui e não quando se chegava no outro país. Muitas vezes a decisão é tão pouco pensada que a pessoa se deixa influenciar por experiências de amigos ou familiares, e quando se vê que as coisas não são como se havia imaginado o choque certamente é maior”, explica Laura.
Conheça algumas histórias. Clique no nome da pessoa para abrir o texto:
“Bateu uma crise de pânico. Eu falei: vou voltar e pronto. Tirei um peso gigante das minhas costas. Quatro dias depois, já estava de volta ao Brasil”
O editor de vídeo Geraldo Neto, 28 anos, morava em Riberão Preto, no interior de São Paulo, e assim como muitos tinha o sonho de conhecer a Europa. “Sempre fui apaixonado pela cultura, pela história de lá. Como queria aprender inglês, achei que seria uma grande experiência ir para a Inglaterra”, conta. Decidido, pediu demissão do trabalho e juntou vinte mil reais para passar um ano na capital inglesa. Passados sete meses da demissão – tempo que levou para conseguir resolver burocracias do seu visto -, era hora da viagem, mas agora só lhe restavam oito mil reais, pouco dinheiro, levando-se em consideração que a moeda local da Inglaterra é a libra e ele pretendia ficar um ano estudando sem trabalhar.
Em apenas uma semana em Londres o sonho desmoronou. O apartamento que alugou e as diferenças culturais o assustaram logo no segundo dia. “Conhecer o lugar onde eu ia morar foi meio desesperador. Eram oito brasileiros que moravam ali e meu quarto era a sala de estar, só que separado com uma divisória. Todo o chão era de carpete e eu tenho alergia. O banheiro parecia de filme de terror, com uma banheira velha e uma ducha higiênica grande no lugar do chuveiro”, relata Geraldo. “Lá era tudo muito estranho, o céu era escuro, a cidade não tinha cores. Era meio monocrómatico. Nos filmes é lindo, mas pessoalmente não foi nada agradável”, conta ele.
A psicóloga Laura Ueno explica que tal decepção é comum. “Muita gente sai do país por uma idealização. Então é importante que ela se conscientize sobre ‘para onde está indo’, ‘como é’, ‘quais expectativas tem’, para que haja um pouco mais de realismo”, explica Ueno. Segundo ela, o choque sempre irá existir e o importante é ser paciente, uma vez que a adaptação completa leva algum tempo. “A pessoa tem que saber que ela vai passar por um processo, e que é importante se abrir para uma nova cultura, com um novo jeito de fazer as coisas”, completa.
Ainda no terceiro dia em Londres e com apenas 600 libras restantes na carteira, o desespero começou a tomar conta de Geraldo com a impossibilidade de conseguir um emprego em sua área, já que todos exigiam inglês fluente. “Comecei a ter crises de pânico, que me afetavam fisicamente. Não conseguia dormir de tanto pensar nas coisas, inclusive em tarefas simples como comer e tomar banho, que me assustavam um pouco”. O brasileiro resolveu, então, remarcar a passagem para dali a três dias. “Tirei um peso gigante das minhas costas. Aí sim deu para aproveitar. Fiquei dois dias só passeando tranquilamente e gastando todo o dinheiro que me restava como turista.”
Depois de exatos oito dias no exterior – 356 a menos do que o previsto -, Geraldo aterrissou de volta no Brasil. “Era como se eu estivesse saindo de um filme, com roteiro intenso e louco. Minha cabeça não teve tempo de interpretar tudo o que aconteceu. Quando voltei senti o calor e olhei para cima, azul! Era tudo colorido, como se tivessem tirado um insufilme do céu”, conta.
“Dizem que quem mora no exterior uma vez jamais volta a se adaptar no seu país de origem por completo. Comigo foi exatamente assim”
Há também casos em que a adaptação no novo país é mais fácil que o esperado e o difícil é a readaptação ao voltar ao país de origem. Marília Kugler, 22 anos, morou por um ano e seis meses no estado de New Jersey, nos Estados Unidos. Natural de São Caetano do Sul, no ABC paulista, Marília trancou o segundo ano da faculdade de Moda para fazer um intercâmbio de estudo e trabalho. “No meu caso, encontrei nos Estados Unidos aquilo que não encontro no Brasil. Me identifiquei com o modo de vida muito mais rápido do que esperava. Gosto do Brasil, mas se colocar na balança as coisas que me fazem bem a maioria delas está nos Estados Unidos”, conclui.
Ao contrário de Geraldo, por exemplo, que mal podia esperar para voltar ao país de origem, Marília, que voltou ao Brasil há 6 meses, ainda não conseguiu se readaptar. “Não dirijo mais, não aguento as baladas daqui e muito menos as pessoas. É tudo muito diferente, a educação é outra, a cabeça e os assuntos definitivamente não me agradam mais.” A psicóloga Laura Ueno esclarece: “Esse choque também é uma forma de a pessoa ampliar a visão de mundo que ela tem”.
Segundo a especialista, há até pouco tempo existia o consenso de que era mais difícil deixar o país de origem e ir morar em um país desconhecido do que retornar à terra natal. “De um tempo para cá esse retorno tem sido tão difícil quanto ou até mais complicado”, afirma a especialista. “Pela aculturação e mudança de vida, a volta passou a ser também uma migração”, explica. Há aspectos tanto individuais quanto sociais que influenciam na readaptação. De acordo com a psicóloga, os aspectos individuais são aqueles com os quais somente com o tempo a pessoa irá se acostumar novamente. Já os problemas sociais independem do indivíduo: “São problemas como a condição econômica do país, a segurança, etc”.
“O que eu mais gosto de fazer é viajar, ter contato com as pessoas, conhecer diferentes culturas e ver vários lugares. Viajo o mundo e depois volto para casa, em Dubai. É perfeito”
A jovem Priscila Valavicius, 22 anos, se preocupa com seu retorno ao Brasil, que ainda não tem data prevista. “Não sei se eu vou conseguir voltar. Não vai ser a mesma coisa porque já tive muitas experiências diferentes.” Priscila escolheu viajar o mundo como comissária de bordo e, para tal, mudou para Dubai, nos Emirados Árabes, Oriente Médio. Desde junho deste ano, ela vive no país muçulmano, cuja cultura destoa completamente do ambiente onde foi criada.
Não é a primeira vez que Priscila muda drasticamente de país nem de cultura. Ela já havia feito intercâmbio na Holanda, mas voltou ao Brasil com vontade de continuar em contato com outras culturas. “A única maneira que encontrei foi ser comissária. Não é por amor à profissão, mas pela oportunidade de conhecer outros lugares”, explica.
O contrato com a companhia aérea Emirates dura três anos, mas ela diz que não sabe por quanto tempo irá permanecer. No caso de Priscila, a adaptação conta com alguns fatores favoráveis: Dubai é a cidade mais cosmopolita e tolerante dos Emirados Árabes Unidos. “81% da população do país é estrangeira, por isso é difícil ver alguém daqui na rua. Todo mundo fala inglês, é tranquilo”, conta.
Lidar com as diferenças culturais não é um problema para Priscila. “Prefiro morar num lugar com vários tipos de cultura, porque aprendo a conviver com todas”, diz ela.
“Sou recém-chegada de Minas Gerais e me impressiono como cidadãos de regiões diferentes de um mesmo país podem ser tão diferentes!”
Sim, pode haver choque cultural dentro de um mesmo país. A mineira Raquel Delage, de 27 anos, cursa mestrado em uma faculdade particular de São Paulo e sente certa dificuldade de socialização. “Não sei se foi porque eu morei durante 5 anos em uma cidade universitária e longe dos meus pais, mas percebo valores muitos diferentes entre colegas de lá e daqui”, desabafa.
Antes de se mudar para a capital paulista, Raquel morava em uma república em Juiz de Fora, Minas Gerais, e antes disso com a família na pequena cidade de Governador Valadares, no interior do estado. A mudança de vida, segundo a psicóloga Laura Ueno, inclui, além das questões psicológicas, a adaptação a uma nova sociedade, diferente daquela a que estava acostumada. “Adaptar-se a outros modos, a um estilo de vida diferente, é necessário para conseguir socializar”.
Raquel citou alguns dos seus principais estranhamentos. Entre eles, sobre os idosos. “Não consigo conter a risada… Aqui eles são estressados!”, diverte-se, ao se referir ao quão pacato são, de um modo geral, os idosos que ela conhece em Minas Gerais. “Sem contar as milhares de pessoas com fone de ouvido. Não adianta nem pedir uma informação porque elas não vão te escutar e muito menos ‘jogar conversa fora’ com você”, completa, frustrada.
Há dois anos em São Paulo, Raquel ainda não consegue encarar a mudança de uma forma positiva. “Reconheço tudo o que São Paulo proporciona, só que para ter acesso a tudo isso é preciso pagar o preço e aceitar que Minas é Minas, pronto e acabou”, encerra. A psicóloga explica: “A forma positiva ou negativa com que se ‘recebe’ a mudança é crucial na adaptação”.
“Todos os meus amigos em Sorocaba são ou brasileiros ou de outra nacionalidade. Eu não espanto norte-americanos, mas também não me esforço para procurá-los”
Há situações em que mesmo com expectativas pessimistas a mudança pode surpreender positivamente. Foi o que aconteceu com Bill Drix, norte-americano de 59 anos que mora há três anos em Sorocaba, no interior de São Paulo, onde trabalha como gerente de projetos em uma multinacional de engenharia. “Confesso que estava apreensivo de ser recebido como um gringo arrogante, que acha que sabe tudo”, conta Bill, que veio transferido da empresa dos Estados Unidos. “Mas a minha preocupação era infundada. Para um estranho que vem de uma terra estrangeira a recepção foi uma surpresa maravilhosa e um ótimo alívio”, revela.
Para a psicóloga Laura Ueno, uma vez que a pessoa já sabe que vai ter que passar por um processo de aceitação, ela tem que agir de modo a facilitá-lo. “É importante também se abrir para uma nova cultura e um novo jeito de fazer as coisas”. No caso de Bill, o esforço e a preocupação que ele teve em ser aceito colaborou positivamente para uma rápida adaptação. “Já me disseram que sou muito receptivo à cultura brasileira e eu não tenho nenhuma dúvida de que isso influencia positivamente na hora de fazer amizades”, orgulha-se.
A vontade de Bill em se adaptar logo no Brasil é também claramente percebida por sua fala. Ele tem um português tão bom que, se não fosse pelo sotaque, seria praticamente perfeito. Voltar para os Estados Unidos não é mais uma possibilidade para ele. “Se eu me lembro bem, foi bem antes de completar o primeiro ano aqui que eu percebi que já queria ficar no Brasil permanentemente”, conta orgulhoso.
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