por Gustavo Jreige, Júlia Aronchi e Vinícius Saccomani / 25 Out
Adotar um estilo de vida sustentável é praticamente um ato de conversão. É exatamente por isso que a grande maioria resiste a essa mudança, enquanto uma pequena minoria consciente é chamada de ‘eco-chata’, ‘eco-xiita’, ‘bicho grilo’, ‘profetas do apocalipse’ e por aí vai. Para quem já aderiu à mudança de hábitos a prática se tornou exatamente isso, um hábito. A maior dificuldade, assim como quando se decide frequentar uma academia, é começar. Para saber como isso pode acontecer, contamos aqui parte da história de quatro pessoas que lutam pela tomada de consciência através de trabalhos e exemplos de vida sustentáveis.
A primeira delas é Washington Novaes. Jornalista de 76 anos, ele atualmente ministra a palestra “Limites da Sustentabilidade”, apresentando números em defesa do desenvolvimento sustentável que foram coletados durante toda sua vida profissional, dedicada ao tema e que teve início em 1977. Na época, ele integrava a equipe do programa de televisão Globo Repórter, na Rede Globo, que lhe rendeu o primeiro contato com povos indígenas, na tribo Maué, na região do Rio Andirá, no Amazonas.
Hoje, além de escrever artigos para o jornal O Estado de S. Paulo, ele também escreve para o jornal O Popular, de Goiânia, e é supervisor do programa Repórter Eco, da TV Cultura. É com trabalhos como estes que Washington Novaes busca impactar pessoas para causas sustentáveis, usando uma ferramenta primordial: a informação, que segundo ele, é o que de fato gera mudança de comportamento. “As pessoas precisam saber sobre tudo o que está acontecendo, que é de extrema gravidade. Elas precisam ter consciência que tudo o que fazem tem impacto sobre o meio físico e precisam saber, principalmente, o preço que esses impactos têm”.
Washington Novaes é insistente na hora de defender a tomada de consciência como principal meio de geração de mudanças. Ele exemplifica erros comuns, próprios de um discurso meramente taxativo: “Não adianta você falar, por exemplo, para a pessoa não jogar lixo no chão. Ela vai continuar fazendo porque para ela aquilo é normal. O todo tem que mudar. A visão de mundo tem que mudar. Só assim a mudança terá efeito”.
Para que a informação gere resultados reais, o jornalista acredita que é preciso trabalhá-las no âmbito da cidadania. Desse modo é possível gerar uma indignação na sociedade que não fique somente no discurso, mas renda também atitudes. “É preciso sair da passividade e para isso é preciso informar os jovens, que como parte da sociedade brasileira vivem o que eu costumo chamar de ‘retórica da indignação’. É preciso ajudá-los a se organizar para discutirem e formularem projetos políticos”, defende. “A sociedade tem que se assumir como sujeito nessa história e não como vítima”, completa.
Washington Novaes mora há 23 anos em um chácara de 22 000m² em Goiânia. Tudo o que tem por lá foi plantado ou construído por ele. Há pomar, hortas e galinheiro. O aquecimento da água é feito somente através da captação de energia solar. Todo o lixo é separado e depois encaminhado para locais de recolhimento adequados. Ele ainda conta que procura depender o mínimo possível de transporte e que o fato de hoje morar e trabalhar no mesmo local ajuda muito no cumprimento dessa missão.
“É evidente que em cidades muito grandes é sempre mais difícil conseguir fazer coisas que, por exemplo, eu faço aqui. Mas acredito que se a sociedade se organizar ela consegue conservar a praça, replantar e fazer mudanças importantes seja onde for. O que se precisa é da participação de cada pessoa tentando adequar a vida pessoal para que os benefícios sejam grandes, e isso é uma escolha”, conclui Novaes.

Marcelo Yuka também acredita que a mudança virá a partir de uma escolha nossa. Músico e compositor de 44 anos, Yuka foi um dos fundadores do grupo musical O Rappa. Hoje, comanda um projeto social chamado F.Ur.T.O (Frente Urbana de Trabalhos Organizados) e lidera a ONG B.O.C.A (Brigada Organizada de Cultura Ativista).
Sua ligação com sustentabilidade ficou mais evidente depois dos nove tiros que levou durante um assalto, em 2000, que o deixaram paraplégico. Marcelo Yuka teve que diminuir os trabalhos sociais que fazia nas favelas por conta da dificuldade de locomoção, e foi então que começou a se envolver em ONGs que atuavam em outras causas sociais. Hoje, ele trabalha com presidiários dentro de penitenciárias, e foi assim que começou a pensar na ação social como uma atividade sustentável.
Yuka defende a ideia de que todos devemos repensar a relação que temos uns com os outros. “Tudo depende das relações humanas que temos entre nós e entre o solo que pisamos. O que fazemos se reflete no outro e no meio onde a gente vive. Nós podemos ser a vacina ou o veneno”, afirma. Um dos exemplos de como isso pode acontecer na prática vem do consumo exagerado.
“É incrível como ainda não questionamos a forma de fabricação dos celulares, por exemplo. Enquanto a gente se preocupa em pagar menos nas ligações, pessoas trabalham em condições sub-humanas no Congo.” O país do oeste africano possui uma das únicas fontes de extração de minerais necessários para a fabricação dos aparelhos. “Quando mais pessoas começarem a se importar com isso, as grandes empresas vão ter que mudar”, completa Yuka.
Por meio de questionamentos como este, Yuka propõe uma mudança não somente na forma de fabricação de determinado produto, mas também nas relações humanas. “Em situações como estas, nas quais sabemos que a forma de fabricação de um produto está acabando com um país, temos que enxergar que isso não é legal”, explica.
Yuka acredita que é esse humanismo, desperto em cada um de nós, que irá melhorar as nossas relações com o mundo e, consequentemente, com nós mesmos. “Temos que refletir sobre o que é ser humano, e que o amor é a melhor forma de inteligência. Para isso, não existe faculdade, a gente aprende errando. O problema é que hoje, como humano, não dá mais para errar”, conclui.

Economista político de 70 anos, Ladislau Dowbor também é favorável à mudança de valores. Ele atua como professor titular de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) nas áreas de economia e administração. Também é presidente do Conselho do Núcleo de Estudos do Futuro da PUC-SP, que aborda temas como educação, cultura, ética global, desenvolvimento sustentável e responsabilidade social. No começo dos anos 80, Ladislau Dowbor foi consultor da Organização das Nações Unidas – ONU , na área de Assuntos Políticos Especiais. Durante quase 50 anos de carreira, acompanhou a evolução econômico-social do país e aponta um paradoxo quando questões políticas são relacionadas a um desenvolvimento sustentável.
Segundo ele, há um erro conceitual quando se fala em crescimento do país. “O PIB cresce porque empresas madeireiras, siderúrgicas, energéticas e indústrias de celulose aumentam sua produtividade enquanto o meio ambiente é destruído por elas mesmas”, explica. Ladislau Dowbor defende que a “ética da ganância” dê espaço à “ética da contribuição” por meio de parcerias entre governos, empresas, instituições privadas e universidades. “Ninguém faz nada sozinho, é preciso unir forças. O essencial é que com isso consigamos sair de uma sociedade de competição para entrar em uma sociedade de colaboração”, explica.
Ladislau Dowbor defende que a sociedade se organize em torno de seus interesses comuns e que, para isso, é preciso construir uma noção social e ambiental desde cedo, integrando e aproximando a sociedade do ensino. “A ideia não é dar um diploma à pessoa para que ela tenha condições de se afastar de uma realidade ruim, e sim dar a ela instrumentos para que transforme sua realidade”.
Segundo ele, nossa maior missão é entender que o fator social, assim como o ambiental, são vetores de avanço e não obstáculos para conseguirmos evoluir. “É preciso que o Brasil repense a sua conta. Deixar de olhar um pouco o Produto Interno Bruto (PIB) e dar mais valor à felicidade interna bruta”, conclui.

Foi pensando em felicidade que Alice Lobo, jornalista de 32 anos, começou a se dedicar profissionalmente ao tema sustentabilidade. Em maio de 2009 ela lançou o blog Verdinho Básico, onde escreve sobre tendências de moda, design e gastronomia sustentáveis. A iniciativa de criar o blog veio no momento em que Alice estava repensando sua vida profissional após sofrer uma crise de estresse que fez com que fosse parar no hospital inconsciente, devido principalmente a uma séria enxaqueca.
Foi então que Alice, que já havia participado de uma edição especial da revista Veja sobre o meio ambiente, levantou a bandeira verde para o mercado jornalístico. “Comecei vendendo uma pauta para a revista Elle que mostrava como ser green é cool e deu supercerto. Desde então, decidi que ia trabalhar com aquilo que é vitrine do que eu penso, acredito e gosto”, conta. “Sustentabilidade com um approach jovem e de lifestyle para tentar quebrar o tabu que existe por aí”, completa Alice.
As práticas sustentáveis começaram a fazer parte da vida de Alice quando, aos 7 anos de idade, ela entrou para a Federação Bandeirante do Brasil – FBB -, uma organização civil de educação não-formal voltava para o público infanto-juvenil. Naquela época, Alice também participava de atividades optativas de assistência social que o Colégio Santa Cruz, onde estudava, oferecia. “O bandeirante recebe ensinamentos que são, acima de tudo, de cidadania. Eu também ia a orfanatos e dava aula em favelas. Eu cresci com tudo isso”.
A educação recebida durante a infância foi somada a experiências internacionais da fase adulta que fizeram com que Alice percebesse que questões primordiais como respeito ao meio ambiente e consumo moderado estão distantes da realidade de muitas pessoas no Brasil. Em 2006, Alice morou durante seis meses em Paris, na França, onde podia desfrutar de uma enorme oferta de produtos orgânicos disponíveis no supermercado. Ela viajou diversas vezes a Londres, na Inglaterra, em visitas a parte de sua família que mora lá. Além disso, foi para Copenhague, na Dinamarca, e para a Califórnia, nos Estados Unidos. “Me incomodava muito ver como lá fora os jovens e todas as pessoas já estão muito mais conscientes e aqui elas se limitam a achar que é coisa de bicho-grilo”.
O nome do blog, Verdinho Básico, foi escolhido na tentativa de quebrar estigmas. “Quando escolhi, pensei: ninguém vai achar que é uma coisa chata”. Alice confessa que teve medo que ativistas ou pessoas mais sérias achassem que ela estava brincando com o tema ou sendo superficial. “Mas é claro que não. Foi um approach, porque eu acredito que a moda é uma das maiores e mais poderosas mídias que a gente tem. É só ver o quanto a roupa de uma personagem da novela gera de comentários e o quanto os desfiles de moda geram de comportamento.”
E foi assim que Alice escolheu por começar a influenciar pessoas para causas sustentáveis. “Isso é muito fácil se você realmente acreditar e agir. Influenciar é algo que acontece naturalmente com o exemplo que você dá”. Ela conta como algumas amigas com as quais costuma sair adquiriram os mesmos hábitos que ela, sem que fosse necessário “pregar”, como ela mesma diz.
“Sempre que vem um canudo junto com o copo de bebida eu rejeito. Afinal, não faz sentido algum usar aquele canudo pensando que você vai se prevenir caso o copo tenha sido mal lavado! Hoje, minhas amigas também rejeitam o canudo sem eu que eu nunca tenha falado alguma coisa.” Alice defende a idéia de que quando alguém age de uma maneira que faz a outra pessoa parar para pensar esta passa a agir conscientemente.
Ela afirma que se preocupar com o planeta significa se preocupar com você mesmo e com as relações humanas. “É muito mais fácil fechar os olhos, mas fazer isso está cada vez mais difícil porque afinal ontem a enchente foi em Santa Catarina e amanhã pode ser na sua cidade”, conclui.
Foto Washington Novaes: Alexandre Battibugli.
Foto Marcelo Yuka: Agência Brasil.
Foto Ladislau Dowbor: Arquivo pessoal.
Foto Alice Lobo: Carola Montoro.
Leia mais:
A escolha do tema
O que é sustentabilidade
O que há de novo
Washington Novaes
O tema na mídia
Alice Lobo
Para admirar
Dicas sustentáveis
Uma semana adotando hábitos sustentáveis
2º dia adotando hábitos sustentáveis
3º dia adotando hábitos sustentáveis
4º dia adotando hábitos sustentáveis
5º dia adotando hábitos sustentáveis
6º dia adotando hábitos sustentáveis
Sétimo e último dia adotando hábitos sustentáveis
Veja mais:
Galeria de fotos no Flickr
Assista mais:
Galeria de vídeos no YouTube