Estréia hoje, em todo o país, o filme “Era uma Vez…”, nova produção do diretor Breno Silveira, de Dois Filhos de Francisco. Eu já assisti, e gostei.
Postei sobre o filme há algum tempo, disse que não entendia qual o objetivo de se criar uma nova versão de Romeu e Julieta e fiquei receoso com relação a sua qualidade - apesar de botar fé no trabalho do diretor, que encarava esse filme como a produção de sua vida.
Pois bem. Assisti ao filme duas vezes já, em cabines. E afirmo: Breno mostra o que sabe fazer de melhor, trabalhar sentimentos sem cair na pieguice - não espere um filme sobre violência, pois não é. Naturalmente, a violência dos morros cariocas está presente e é determinante para a trama, mas não é seu foco. Esse papel fica para o amor dos protagonistas, um acerto, que também leva ao maior erro do filme: O pior de “Era uma Vez” vem logo de sua inspiração: ao atualizar a trama de Romeu e Julieta, o filme acabou engessado à história que lhe deu origem.
As atuações são boas (Thiago Martins - nascido no Vidigal e ainda morador de lá - e Vitória Frate estão muito bem, assim como Rocco Pitanga), a trilha sonora - assinada por Carlinhos Brown e Marisa Monte - foi bem escolhida, a fotografia também agrada e a direção de Breno Silveira imprime um bom ritmo ao filme. Já o roteiro…
A história do vendedor de quiosque Dé (Thiago), morador do morro do Cantagalo, que se apaixona pela patricinha Nina (Vitória) e encontra a questão social no meio do caminho entre Ipanema e a favela, é contada através de uma coleção de clichês. Talvez menos do que eu esperasse (ok, eu esperava que o filme fosse ter coisas bem patéticas), mas em grande quantidade. O bom é que eles funcionam e a história engrena. Você se envolve, torce pelos protagonistas, quer que eles fiquem juntos, acredita que aquele amor pode dar certo, fica aflito pelo que pode acontecer… Até que chega a meia hora final e o roteiro perde qualidade na velocidade da luz.
Sério, gostei muito filme, até chegar no fim e todos os personagens agirem feito idiotas, tomando as decisões mais burras e improváveis, apenas para que se chegue ao final apoteótico de Romeu e Julieta. Isso acontece, mas da pior forma possível. Eu só pensava: o filme estava bom, por que esse final tão forçado, por quê??
Eu participei da equipe de divulgação do filme, então pude ver reação bem diferentes, dependendo do público. Em uma das sessões, para “formadores de opinião”, a risada foi coletiva nas cenas finais. Por outro lado, nos comentários aqui do blog, pessoas que já assistiram ao filme falam dele com toda paixão do mundo.
Entendo ambos. Dá realmente para se apaixonar por “Era uma vez…”, que é um belo filme - e, para mim, é um tanto surpreendente em seu desenvolvimento (até você lembrar de Romeu e Julieta e falar: “putz, será esse o final” e acertar). Mas também dá para rir do desfecho inverossímil e de como os meios surgem apenas para que o fim seja possível, com os personagens deixando de agir naturalmente.
Tem quem ame, tem quem odeie “Era uma Vez…”. Eu gostei, apesar dos pesares. No mínimo, vale o ingresso.
Uma história pode ser contada e recontada milhões de vezes sem nunca cansar. A base da dramaturgia, principalmente televisiva, é essa: repetir o que o público já está acostumado e implementar uma ou outra novidade no meio do caminho. Ou você acha que alguém gosta de algo que gere completo estranhamento?
Pensa bem, quantas vezes você já viu, ouviu e leu versões de Romeu e Julieta, adaptadas aos mais diversos contextos? Novelas, séries e filmes já beberam muito nessa fonte - sem, entretanto, fazer com que as pessoas parassem de suspirar pelo amor que parece impossível, mas é batalhado até as últimas conseqüências.
É na mais famosa obra de Shakespeare que o novo filme de Breno Silveira, diretor do mega-sucesso “2 Filhos de Francisco” é baseado. A “inovação” já é velha: ao invés de famílias que se odeiam, a condição social é o abismo que separa o casal apaixonado. Em “Era uma vez…“, um rapaz pobre, do morro, cai de amores por uma moça rica, do asfalto - trama parecida com a que serve de mote para “Amor e Intrigas”, novela da Rede Record, e com tantas outras produções. Então qual o objetivo de fazer um filme sobre isso?
Parece que essa é mesmo a intenção do diretor. Esse é o filme da vida dele, o que ele sempre sonhou. Breno queria comprar os direitos para fazer “Cidade de Deus“, mas chegou tarde demais. Convidou Paulo Lins, autor do livro “Cidade de Deus” para escrever o roteiro de “Era uma Vez…”, mas parou tudo, graças ao furacão “2 Filhos de Francisco”. Virando segundo filme, após o grande sucesso - inclusive de crítica - que conquistou ao mostrar pessoas comuns (ou quase isso) com suas forças, fraquezas, amores e ódios, Breno não quis mais falar de violência e correr o risco de ficar na sombra de “Cidade”. Focou a história, então, no romance do casal - para tal, convidou Patrícia Andrade, de “2 Filhos”, para reescrever o roteiro.
Foram 500 latas de filme gravado (o trabalho com os atores, pelo que contam, foi intenso), algumas favelas cariocas usadas como locação e um esforço tremendo para conseguir verba para finalizar a produção, toda feita em película. O resultado estréia nos cinemas em 25 de julho, como a materialização do sonho de Breno Silveira - que, naturalmente, já desperta curiosidade: Será que ele conseguirá ter algum sucesso próximo ao de “2 filhos de Francisco?”
Não sei, mas acredito que no elenco há mais um elemento forte, que traz mais verdade a adaptação: o protagonista Thiago Martins. O jovem ator veio do morro do Vidigal, através do projeto Nós do Morro, do qual ainda faz parte. Já fez novelas na Globo com relativo sucesso, tem seu espaço como um promissor ator. Agora, faz a um papel que lembra sua origem real. Oportunidades como essa, se bem aproveitadas, costumam dar muito certo. Espero que seja o caso.
Pode ser que seja tudo um grande clichê, mais um filme da estética da pobreza e da violência. Pode ser que o roteiro caia na vala comum e torne o filme apenas mais uma história de Romeu e Julieta atualizada e empobrecida. Mas também pode ser um retrato vivo de uma sociedade cada vez mais gritante, surpreendendo positivamente. Pode ser que Breno Silveira consiga transformar seu sonho em algo realmente bom, provando que as histórias humanas se repetem, mesmo que mudem de cenários e de personagens, e que, ainda assim, podem ser bem contadas a cada nova vez. Tendo ou não final feliz, começando ou não com “era uma vez…”
“Falling Slowly”, tema do filme irlandês “Once”, venceu o Oscar 2008 de Melhor Canção Original. A seguir, você confere a letra e a tradução dessa romântica música, composta e interpretada por Markéta Irglová e Glen Hansard - que também protagonizam a película. A canção é marcante e mostra como é possível se apaixonar aos poucos, lentamente, sem nem se dar conta disso - combinando bastante com a história de “Once”. Para ouvir de coração aberto.
Letra
Música, Letra e Interpretação: Markéta Irglová e Glen Hansard
I don’t know you
But I want you
All the more for that
Words fall through me
And always fool me
And I can’t react
And games that never amount
To more than they’re meant
Will play themselves out
Take this sinking boat and point it home
We’ve still got time
Raise your hopeful voice you have a choice
You’ve made it now
Falling slowly, eyes that know me
And I can’t go back
Moods that take me and erase me
And I’m painted black
You have suffered enough
And warred with yourself
It’s time that you won
Take this sinking boat and point it home
We’ve still got time
Raise your hopeful voice you had a choice
You’ve made it now
Falling slowly sing your melody
I’ll sing along
Tradução
Tradução livre: Claudia Fusco, Gabriela Brasileiro e Gustavo Jreige - www.outrosolhos.com.br
Eu não te conheço
Mas te quero
Ainda mais por causa disso
As palavras caem de mim
E sempre me enganam
E eu não consigo reagir
E jogos que não são
Mais do que parecem
Irão se desgastar sozinhos
Pegue este barco naufragante e o aponte para casa
Ainda temos tempo
Ressoe sua voz esperançosa, você tem uma escolha
E você a fez agora
Se apaixonando aos poucos, olhos que me conhecem
E eu não posso voltar atrás
Humores que me tomam e me anulam
E eu estou deprimido
Você já sofreu o bastante
E brigou consigo mesma
É hora de você vencer
Pegue este barco naufragante e o aponte para casa
Ainda temos tempo
Ressoe sua voz esperançosa, você teve uma escolha
E você a fez agora
Se apaixonando lentamente, cante sua melodia
Eu cantarei junto
Tinha como ser mais óbvio? Todo mundo cantou a pedra: “Onde os Fracos Não Têm Vez” é o melhor filme do ano. Não dava para ser mais esperado.
É o que eu disse nos prêmios anteriores: O filme não entrou na lista dos meus favoritos da vida, não é tão fácil assim de se gostar (eu gostei, mas muita gente acha chaaaato) e nem era meu preferido na disputa, mas é inegável sua qualidade. É realmente bom - mas eu prefiro de longe “Sangue Negro”.
A história é interessante - dizem que é muito fiel ao livro - e prende o espectador com eficiência, mas falta algo. A Academia não achou e fez uma soma esperada: Melhor ator coadjuvante + Roteiro adaptado + Diretor = Melhor Filme.
Desse modo, termina o Oscar 2008, sem NENHUMA surpresa. E aí, você gostou?
Concorriam
“Conduta de Risco”
“Sangue Negro”
“Desejo e Reparação”
“Juno”
Seguimos ser surpresas. Todo mundo esperava o Oscar para os irmãos Coen em Direção - o primeiro deles como dupla - e ele se confirmou.
Merece, a direção é o melhor do filme mesmo.
Concorriam:
Tony Gilroy (”Conduta de Risco”)
Jason Reitman (”Juno”)
Julian Schnabel (”O Escafandro e a Borboleta”)
Paul Thomas Anderson (”Sangue Negro”)
Ethan e Joel Coen (”Onde os Fracos Não Têm Vez)
Se fosse diferente, seria uma das maiores injustiças da história do Oscar. “Sangue Negro” é um grande filme graças a monumental atuação de Daniel Day Lewis, que faz a gente ter todo tipo de sentimento por seu personagem.
Não tinha como não ser, apesar das outras boas atuações. A questão é: ELE faz o filme que, basta ver para perceber, já nasceu clássico.
Até agora, estou gostando dos resultados até agora. E vamos às principais categorias!
Concorriam:
George Clooney (”Conduta de Risco”)
Tommy Lee Jones (”No Vale das Sombras”)
Viggo Mortensen (”Senhores do Crime”)
Johnny Depp (”Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”)
O maior sucesso de bilheteria entre os indicados a Melhor Filme desse Oscar tem um ingrediente que faz toda a diferença: o roteiro genial. Essa é a melhor coisa do filme, que tem ainda uma ótima atuação da Ellen Page, uma trilha deliciosa, uma direção eficiente e um elenco invejável de coadjuvantes - quase todos vindos de séries de TV!
Repete o sucesso independente do ano passado, também da Fox Searchlight, e leva Roteiro Original, assim como “Pequena Miss Sunshine”. A trajetória é bem parecida.
Noto aqui a ausência do roteiro de “Garçonete”, filme que foi sucesso de público e crítica, mas acabou esquecido do Oscar.
Concorriam:
“Lars and the Real Girl”
“Conduta de Risco”
“Ratatouille”
“Família Savage”
“Freeheld”, que eu não tenho idéia do que é, levou documentário em curta.
Já “Taxi to the Dark Side”, que passou no Brasil no Canal Futura - e eu também não vi -, ficou com o Oscar de Documentário, mostrando a vida de um taxista do Afeganistão e a tortura dos soldados norte-americanos nos nativos. O filme, que tem alto teor político, chegou a enfrentar problemas com seu pôster nos EUA, mas ainda assim levou a estatueta - derrotando o documentarista-pipoca Michael Moore.
Será que o Futura vai repetir? Tomara, queria ver, mas não tava em casa quando passou!
Concorriam:
Documentário de curta-metragem
“La Corona”
“Salim Baba”
“Sari’s Mother”
Documentário
“No End in Sight”
“Operation Homecoming: Writing the Wartime Experience”
“Sicko - SOS Saúde”
“Taxi to the Dark Side”
“War/dance”
“Desejo e Reparação” é um grande filme, muito bom mesmo. Duvido, entretanto, que consiga outra estatueta. Essa é justa: é a trilha sonora que dá o tom às cenas, conseguindo temperar e dar emoção mesmo em momentos em que o filme está em seus ‘baixos’, quando fica confuso. A trilha original de Dario Marianeli mistura os elementos que o próprio filme mistura. Não é esse o papel da trilha sonora, dar mais vida ao filme, mantendo sua personalidade? Então conseguiu!
Concorriam:
“O Caçador de Pipas” (Alberto Iglesias)
“Conduta de Risco” (James Newton Howard)
“Ratatouille” (Michael Giacchino)
“Os Indomáveis” (Marco Beltrami)
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OutrOs OlhOs, por Gustavo Jreige
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