Fiz TV: conheça o canal de TV interativa do Grupo Abril
Você deve ter lido em algum outro blog que, na sexta-feira, dia 29 de junho, aconteceu em São Paulo o pré-lançamento do Fiz.TV, o novo canal televisivo do Grupo Abril. O evento tinha o objetivo de apresentar a emissora aos blogueiros e permitir que tirássemos nossas dúvidas a respeito dessa nova proposta, ainda um tanto mal compreendida por muitos, que insistem em rotulá-la de Youtube-killer ou bobeira do tipo. Não é o caso, nem de longe. Eu estive nesse encontro – que, aliás, me pareceu por diversas vezes uma mistura de coletiva de imprensa com a sociabilidade da Barcamp -, fiz perguntas ao Marcelo Botta, gerente de conteúdo do Fiz, e prestei bastante atenção em tudo que foi dito. Abaixo você poderá compreender melhor como será esse canal, que estreará no próximo dia 30, e ver as minhas impressões a respeito dessa proposta potencialmente inovadora.
TV + Internet
Essa é a premissa básica do canal: veicular apenas conteúdos produzidos por cidadãos comuns, havendo diálogo entre internet e televisão. O Fiz.TV será um portal de vídeos na web, do tipo Youtube, só que com um propósito: ser o meio para o usuário enviar seu material que, após votação popular, pode ser exibido na televisão.
Além disso, há o blog - lançado durante o encontro -, que mostrará destaques entre os vídeos do sistema, sempre com bom humor. O blogueiro, o estudante de jornalismo Fábio, é o apresentador do canal na internet e aparece em vídeos engraçados no próprio site. Na TV não haverá nenhum apresentador ou VJ, apenas uma narradora. Pode ser que a voz da TV e o apresentador virtual venham a interagir – o que, acredito, pode ser bem divertido se seguir na linha adotada pelas legendas do “[adult swim]“, bloco adulto do Cartoon Network.
Os melhores vídeos, segundo os votos dos internautas, vão para a TV, em blocos temáticos. Na internet eles ficarão disponíveis, sob demanda, como estamos acostumados. O legal é que, conforme a pessoa vai produzindo vídeos que fazem sucesso, ela vai aumentando seu nível de poder – começa como telespectador e vai até Chuck Norris – e pode até chegar a ter um programa próprio no canal.
Essa é outra característica da Fiz.TV: ela é totalmente aberta e nem a equipe sabe o que vem pela frente. Não tem uma forma certa, um projeto a ser seguido à risca. Ela será lançada e, com o tempo, irá mudando. Isso é, em partes, proposital, já que eles querem possuir uma programação totalmente flexível, agradando às vontades dos espectadores-internautas.

Público alvo e conteúdo on demand
Está tudo tão aberto que eles não sabem nem em que operadora de TV por assinatura eles estarão. Vão começar na TVA – companhia que pertence ao grupo Abril e à Telefônica e que tem cerca de 300 mil de assinantes -, mas esperam entrar no line-up de outras operadoras em breve. O público-alvo fica evidente com o tipo de visual adotado pelo canal, com arte e vinhetas bem jovens. É nessa parcela dos telespectadores que eles pretendem investir, já que, pelo menos teoricamente, é o público mais aberto a novidades e o que consome e produz esse tipo de conteúdo na internet. Dessa forma, considerando o target e a taxa de alcance familiar de cada aparelho televisor, eles pretendem atingir cerca de 200 mil espectadores no começo do canal.
O problema, ao meu ver, é que as linguagens dos veículos são bem diferentes. O grande atrativo da web é poder ver e indicar qualquer coisa, na hora que você quer. Na TV isso não existe e, por mais flexível que o canal pretenda ser, ele ficará preso à grade de programação - o que, no caso da Fiz.TV, é até um fator até positivo. Explico: eles esperam que o internauta veja o vídeo no site, goste, vote e vá ver na televisão, avisando os amigos. Para isso acontecer, é preciso ter uma grade muito bem elaborada, além de sistemas que avisem ao internauta a que horas determinado conteúdo será exibido na TV. Mais ou menos como MTV Brasil tinha há algum tempo em seu site, em que o usuário se cadastrava e selecionava clipes específicos, podendo receber, por e-mail ou – se não me engano – através de um sofware, avisos de seus horários de exibição no canal. Dessa forma, acredito, pode até funcionar – afinal, seria legal ver um vídeo que você gosta ou que foi produzido por um amigo passando na televisão! – mas é importante que haja o aviso para cada vídeo individual, e não apenas para as faixas temáticas.
Blocos Temáticos
Os vídeos serão divididos por temas ou gêneros, criando blocos, que serão os “programas” dessa emissora. É o caso do “Fiz.Anima”, de animações, o “Fiz.Caca”, só com vídeos trash, o “Fiz.Humor”, de vídeos de comédia, o “Fiz.curta”, com curtas-metragens, e o “Fiz.Doc”, com documentários, que podem vir, inclusive, do meio acadêmico. Isso mesmo: Totalmente colaborativa, a Fiz.TV não receberá apenas vídeos de internautas, mas já está realizando parcerias com universidades do país todo, além de festivais. Acho que daqui pode vir coisa bem interessante, dando espaço a produtos legais, mas que eram engavetados assim que o professor desse a nota ou a estatueta fosse para a prateleira. Só não sei se o público do canal – jovens, que consomem vídeos da web e gostam de inovação – apreciará um gênero mais sério como esse. Torço para que sim, pois é uma divulgação tamanha para a produção universitária nacional (que já vinha ganhando espaço com programas como o “Campus”, da TV Cultura).
Divulgação, essa é a palavra-chave para novas bandas, certo? Pois é, aproveitando o fenômeno das bandas divulgadas online, eles também vão exibir a faixa “Fiz.Clipe”, só com produções musicais amadoras, de bandas independentes – eles já buscam, inclusive, parcerias na área. Boa! Isso é o que acontece na web 2.0 (ah, vai, até que eu sobrevivi a muito texto sem usar a expressão mais mala dos últimos tempos) e também acontecerá na TV 2.0 (não, não terá overdose. Foi a última expressão “2.0” desse post!), o usuário poderá escolher seus clipes e bandas favoritas e depois curtir. Não duvido nem um pouco do poder viral da música e do potencial de indicação que a faixa musical possui, podendo atrair audiência e - por que não? -, amplificar a fama e traçar novos caminhos para os ídolos surgidos na web.
Telejornalismo Colaborativo
O jornalismo, claro, também está presente , com o “Fiz.Notícia” que, obviamente, receberá notícias dos internautas. Isso não foi dito na apresentação, mas o Marcelo me explicou como funcionará esse que pode ser o primeiro telejornal colaborativo da história da TV: O usuário manda o vídeo para o site e os editores do canal (sim, eles também selecionarão os vídeos por conta própria) podem utilizá-lo, caso quente e factual, mesmo sem passar pelos procedimentos básicos (como o processo de votação e o ranking, onde só um Chuck Norris colocaria um vídeo com tanta facilidade na televisão). Ou seja, o vídeo vai para a TV mesmo sem ninguém ter votado nele, para que não perca seu valor-notícia. Compromisso com a informação? Mais ou menos, e é isso que me deixa preocupado.
Tal pressa para veiculação é mais ânsia e euforia pelo conceito de notícia ágil e fresquinha do que comprometimento com o jornalismo e suas premissas básicas, como a checagem. Como não passará necessariamente por processo de votação, a notícia precisaria de um jornalista (um profissional do jornalismo) para checá-la. Não terá. Segundo Marcelo, os vídeos serão veiculados e, caso algo muito errado vá ao ar, eles podem “desmentir no dia seguinte, ou até mesmo no dia!”. É pouco, muito pouco. Imagina só a quantidade de besteira que pode ir ao ar? Temo que seja um desserviço ao jornalismo colaborativo, que caminha a duros passos para conquistar credibilidade no Brasil.
Equipe da Fiz.TV, cuidado com isso, por favor! Não se esqueçam que vocês pertencem ao mesmo grupo que edita a revista semanal de informação mais importante de nosso país (só não se inspirem na credibilidade e imparcialidade de lá, por motivos óbvios) e que, por mais que a inovação seja interessante, tem coisas que são fundamentais, e a verdade é a principal delas.
Integração e Cross Media
As revistas da Editora Abril são parceiras potenciais da Fiz.TV. Já estão sendo elaboradas formas de interação, incentivando, por exemplo, os leitores da revista Superinteressante a gravarem vídeos sobre o tema da edição e mandarem para o site da emissora. Por enquanto não há nenhum plano de lançamento de uma revista Fiz, até porque o grupo já possui uma publicação colaborativa, a Sou+Eu, empreitada jornalística-popular de baixa renda.
A Sou+Eu, aliás, que seria uma parceira natural da Fiz.TV, por compatibilidade de conceitos e de origem, não está nos planos do canal por enquanto. O perfil do periódico é totalmente diferente do da Fiz.TV, já que é voltado a mulheres de classe C e D com uma certa idade – quase o oposto do público jovem, com acesso à internet e à TV paga que a emissora busca. Isso, entretanto e felizmente, tende a mudar, já que, segundo ele, a Sou+Eu será reformulada e se aproximará mais de seu projeto inicial: conteúdo colaborativo para um público mais jovem e com maior poder aquisitivo. Aí, sim, pode acontecer uma junção dos dois produtos mais colaborativos do grupo Abril.
Publicidade
Colaboratividade é, certamente, a palavra mais usada nesse texto – e também na elaboração da Fiz.TV. Tanto que eles pretendem, se possível, exibir apenas comerciais feitos por usuários. Sim, publicidade 2.0 (pois é, não tenho palavra e usei novamente esse termo mala. Desculpe.), em que as marcas pagariam os usuários para produzirem vídeos com seus produtos. Sei não, uma vez é legal, duas vezes dá certo, mas só isso pode ser cansativo e dar errado. Embora entenda a intenção de gerar uma programação unificada – o que tornaria o comercial tão interessante quanto uma atração do “Fiz.Humor”, por exemplo -, temo que não termine bem. Publicidade participativa é bem complexa e, como eu já escrevi aqui no blog, há uma tendência para sua execução nesse nosso contexto de realidade (não, não vou falar 2.0!) horizontal e comunicação bi-direcional, mas quem vai como muita sede ao pote…
Remuneração e aspectos técnicos
O usuário, claro, não produzirá conteúdo de graça, ele será pago caso seu vídeo passe na televisão. Nenhum grande cachê – segundo Marcelo, ninguém vai conseguir viver disso! -, mas uma justa recompensa pelo bom trabalho. O departamento jurídico terá a árdua tarefa de deixar tudo legalizado, sem infringir copyrigh ou permitir apologia a qualquer coisa (como seria enquadrado o Tapa na Pantera, com drogas, por exemplo). A equipe técnica terá que ajustar o áudio e a imagem de cada vídeo para que tudo fique bom na tela grande – e, pelo que foi mostrado para gente, pareceu estar funcionando, já que não ficou com imagem quadriculada ou coisa do tipo. O GC, gerador de caracteres, aquele letreiro que aparece na tela, informará o nome do vídeo, os autores e a localidade dele (imagina o trabalho que vai dar organizar e separar tudo isso para montar os blocos?).
Não será nada fácil fazer esse canal funcionar, mas a equipe é jovem e está determinada a tornar a Fiz.TV um sucesso, indo muito além das 4 horas diárias de exibição dessa fase inicial. O clima intimista e informal do nosso encontro, realizado no “quintal” do casarão que abrigará o canal, foi intencionalmente criado para mostrar o espírito do projeto: um grupo de amigos trabalhando naquilo que gosta e criando coisas novas.
Espera aí, essa não é exatamente a história do início de grandes serviços da internet?
Logomarca da Fiz.TV encontrada no Techbits, do meu novo amigo Alexandre Fugita
Compare Preços: Friends, Gilmore Girls, The OC, Smallville
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- Categorias: Especiais, Jornalismo, Mídia, Tecnologia, Televisão
No Brasil, não temos celebridades tão problemáticas assim. Uma ou outra gostosa aparece sem calcinha de vez em quando; algum ex-big brother que ninguém mais se lembra se envolve em alguma confusão; uma ligação entre algum famoso e um traficante de drogas aparece. Mas só, tudo muito modorrento. Não temos ninguém para esperar a próxima m*rda, para comentarmos que vimos a última mancada no TV Fama, para inspirar debates no Superpop ou em algum programa popular da Band. 

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