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Sep6

Uso de “bichês” e enquetes inúteis: O que a Folha Online pode melhorar


Todos nós nos identificamos com algumas marcas e passamos a nos relacionar com elas de maneira diferenciada, mais próxima e até mais passional. Com produtos jornalísticos a relação é ainda mais complexa, já que envolve a percepção e aceitação da credibilidade pelo consumidor e um contato mais longo entre marca e cliente, acontecendo, possivelmente, em diversos momentos do dia, todos os dias.

A minha marca preferida de jornal na rede é a Folha, em disparado. Leio na web, todos os dias, a versão, errr, impressa do jornal; sou assinante do UOL; acompanho a Folha Online e costumo utilizar bastante o seu “comunicar erros” – sendo sempre atendido com gentileza e rapidez.

É claro que, como jornalista essencialmente de web, também quero trabalhar lá, ou estagiar, ou coisa do tipo. Eu realmente gosto da Folha, bem mais do que de outros jornais (embora O Globo também faça um ótimo trabalho na rede). Simples assim.

E é exatamente por isso que me incomoda tanto as besteiras que a Folha Online faz.

Já devo ter reclamado por aqui dos “Destaques GLS”, escritos pelo Sérgio Ripardo, que também é editor-chefe da Ilustrada Online. Na época, eu dizia que aquilo deveria ser um blog e não ser veiculado como análise, dentro da editoria Ilustrada. Depois de um tempo, felizmente, transformaram em uma coluna.

O problema é que ela continua inapropriada. A linguagem é a tal “bichês”, que é um divertido diferencial de blogs gays, como o finado Papel Pobre, mas fica patética num site jornalístico voltado a todos os públicos. Não é preconceito, homofobia ou puritanismo, mas não entendo qual a necessidade de usar palavras como “necas” e expressões afetadas como “bofe-escândalo” para fazer uma coluna GLS.

Quando um humorístico faz uso de palavras e expressões clichês, os grupos GLS se ofendem. Oras, uma coluna na Folha Online que não pode ter a linguagem padrão do resto do site não acaba reforçando o tão combatido estereótipo?

Claro que não sou target, por isso nem posso opinar sobre os temas escolhidos, mas a abordagem – aspecto jornalístico – também é equivocada para um site noticioso (embora na última coluna, o Sérgio tenha acertado o tom). Óbvio que o site não precisa ser engessado e sem graça, mas existem formas e formas de se fazer humor, algumas bem informativas. Não é o caso.

Precisa, por acaso, dar 10 dicas “para evitar o vexame de ser pego com a boca na botija” fazendo “banheirão”? Notem o começo da coluna, mais jornalística, sendo interessante a qualquer tipo de público.

O tal do “banheirão” veio à tona por causa do senador americano, então é mesmo pauta. Informações sobre casos brasileiros e o que os shoppings estão fazendo para evitar a prática também são interessantes. Assim como a análise do Sérgio.

Pena que isso tudo fica resumido a dois parágrafos. Depois, vem dicas para não ser pego praticando. Qual é? Cadê o enfoque jornalístico? Esse tipo de conteúdo caberia em um site segmentado, com público restrito a interessados pelo assunto.

Claro que ninguém é obrigado a ler – eu mesmo não costumo -, mas isso não é desculpa. Por mais que a coluna seja GLS, ela não pode ser feita apenas para gays e, mais uma vez, deveria ter um interesse informativo ou opinativo antes de tudo, que complementasse o aspecto noticioso do site.

Esse é um dos principais pontos em que a Folha Online me irrita, esquecer o que ela realmente é: um site de notícias.

Tal esquecimento passa pela seção de interação da Ilustrada, com enquetes tão relevantes como “Qual a melhor substituta de Glória Maria?” (com o enunciado: “A apresentadora Glória Maria está em férias no “Fantástico”. Nesse período, ela será substituída por Patrícia Poeta e Renata Ceribelli, que vão se revezar na função. Qual das duas você prefere?”) e “Qual a melhor de Amy?” (cujo o enunciado diz: “Amy Winehouse protagonizou, neste mês de agosto, notícias sobre internação por conta de overdose. Qual sua música preferida da cantora inglesa?”).

Nessa enquete aqui, é para responder qual o personagem mais legal de “Desperate Housewives”. Então por que o enunciado é “A Rede TV! estreou, neste mês de agosto, uma versão brasileira do seriado norte-americano “Desperate Housewives“. Qual a personagem feminina mais interessante da série?”? Afinal, é o personagem mais legal de “Desperate ou de “Donas de Casa Desesperadas”? Se for da brasileira, por que os nomes são os dos personagens norte-americanos?

Dá para ficar ainda pior! Olha a enquete que foi a publicada hoje:

Pérolas
Qual a pior frase das últimas semanas no mundo das celebridades?

( ) A indústria da fofoca esqueceu de mim” - Daniella Cicarelli, ex-ronaldinha, no programa de Jô Soares (Globo)
( ) “Oh, my God” - Gisele Bündchen, top model brasileira entediada, durante o lançamento de um xampu em São Paulo
( ) “Ééééé” - Irislene Stefanelli, apresentadora do “TV Fama” (RedeTV!), e sua introdução a qualquer frase
( ) “Xuxa pecou” - Mara Maravilha, ex-apresentadora de programas infantis e ex-capa da “Playboy”, sobre a participação da colega loira no filme proibido “Amor Estranho Amor”
( ) “Um ‘Zé Mané’ teria levado o túmulo dos Matarazzo” - Ronaldo Ésper, estilista, após ser inocentado da acusação de furtar vasos de um cemitério paulistano

Qual é a utilidade? Pra quê isso?

As de outras editorias são realmente bem pensadas e contém debates relevantes, questionando a população sobre temas polêmicos do noticiário, como “Na sua opinião, o senador Renan Calheiros vai conseguir ser absolvido no processo por quebra de decoro parlamentar no plenário do Senado?” e “Depois da norte-americana Mattel, foi a vez da fabricante brasileira Gulliver anunciar um recall de brinquedos fabricados na China. Depois disso, você passou a se preocupar com os itens fabricados no país asiático?

Custava pensar um pouco mais ao elaborar as enquetes da Ilustrada? Só porque é de cultura (opa, você lembra? CULTURA! Não entretenimento, fofoca ou futilidade!) não pode falar sério?

Pode e deve. Acho que aqui há confusão de conceitos. Interatividade por si só é vazia e sem utilidade. Ela precisa de propósito, de dedicação, de atenção, de um porquê.

Ter só para ter é besteira. Interatividade e colaboratividade não são apenas marcas de modernidade. São recursos absolutamente ricos, que podem agregar muito valor ao conteúdo produzido pelos jornalistas e colunistas.

Como consumidor, que gosta muito da Folha, eu lamento esses erros bobos – e, por isso mesmo, tão fáceis de arrumar. Humildade, sem dúvida nenhuma, o Ricardo Feltrin tem para assumir um erro e melhorar. Basta tais erros saltarem aos seus olhos.

E você, concorda comigo? Tem alguma coisa que te irrita?
E os leitores gays, o que acham da coluna “Destaques GLS”?

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Aug17

O vídeo de Oscar Maroni e o país mais surreal do mundo


O vídeo gravado pelo Oscar Maroni, o dono do Bahamas, 24 horas antes de sua prisão, certamente é um documento surreal do momento em que nosso país vive. Tanto pelo contexto, quanto pelo conteúdo, pelo fato do empresário ter recorrido à web para ter voz e, principalmente, pela forma como o faz.

É engraçado, estranho e bizarro ouvir o cara discursar seriamente, enquanto ouvimos “Fera Ferida” de fundo. Parece MUITO que tudo isso é ficção e que essa é uma paródia, feita toscamente. Difícil acreditar que seja de verdade, mas é.

“Mas se vocês não tiverem tempo, nem saco e nem paciência [de entrar em seu site], eu gostaria que vocês refletissem sobre o que é liberdade e até que ponto essa máquina do Estado pode passar como um rolo compressor em cima de um cidadão e deixá-lo no estado que eu estou hoje. Eu acordo nas manhãs dizendo o seguinte: O que eu fiz para de repente derrubarem o meu hotel, me usarem de bode expiatório, fecharem a minha boate, propagarem falsos valores, valores hipócritas?”
Oscar Maroni, em seu comunicado

Hipocrisia é pouco para esse país, que tem no surrealismo bizarro a sua principal característica.

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Jul30

Blogs e jornalismo: Amigos ou rivais?


Sempre me vejo em meio à imbecil polêmica “blogs x jornalismo”. Como normalmente amo e acredito em ambos, fico achando que os únicos inadequados são os que entram na discussão.

Desde aquele fatídico texto do Digestivo Cultural (faz tempo, hein?), que o Cardoso, meticuloso, me recomendou, venho ficando mais atento a essa desconfiança toda entre ambos, que, ao meu ver, mostra-se infundada em todas as instâncias.

Alguns jornalistas vêem os blogueiros como amadores querendo brincar de fazer notícia, em um “show de calouros” (© Márion Strecker). Alguns blogueiros vêem a mídia como um demônio ultrapassado, desprezando-a ou rindo de seu comportamento e modus operandi, como se fossem superiores.

Não tenho certeza de que são minorias não, mas com certeza não é a totalidade que vê as coisas desses modos absurdamente equivocados. Acredito realmente que amadores não podem ser jornalistas, e os blogs nacionais ainda são fracos fornecedores de informação. Também acredito piamente que blogueiros sabem lidar muito melhor com a audiência do que os jornalistas, penando e aprendendo muito mais com seus leitores do que qualquer profissional do jornalismo aprende com um manual de redação ou ombudsman – além de possuírem uma liberdade de emitir opinião que qualquer homem de jornal sonharia ter.

Agora, não é porque o cidadão comum não pode fazer jornalismo (simples: ele não está habilitado tecnicamente para isso), que não pode ser repórter de seu cotidiano. Eis o primeiro híbrido de blogs e jornalismo: o que convenientemente chamamos de “citizen journalism” – ou quase isso. Também não é porque jornalistas estão mesmo acostumados com uma estrutura mais engessada, menos direta e participativa, que eles não podem se acostumar e ter interesse nesse novo tipo de mídia, feita por usuários. Uma coisa não impede a outra.

As mídias vêm se misturando, sem prejuízo para nenhuma delas. Pelo contrário. Qual blog não se alimenta de material produzido pela mídia de massa? A recíproca também é cada dia mais verdadeira, evidentemente. Cada veículo tem sua função dentro de um sistema que tende, sim, ao excesso de informação.

Esse artigo aqui começou a ser escrito ontem, mas a Folha de S.Paulo, mais uma vez, trouxe o assunto semelhante em sua edição de hoje. Em entrevista de capa do caderno Ilustrada, cuja manchete é “Ataque à blogosfera”, o historiador britânico Andrew Keen, que lançou recentemente nos EUA o livro “The Cult of the Amateur: How Today’s Internet Is Killing Our Culture” (isso mesmo: “A cultura do amador: Como a internet de hoje está matando nossa cultura”), diz que a web 2.0 não está democratizando a mídia coisa nenhuma, mas “que acontece o oposto: a mídia tradicional fornece informação de qualidade acessível às massas e não acho que a segunda geração da web esteja reproduzindo isso.”

Polêmico e radical, não? Pois é, mas infelizmente eu tendo a concordar com parte disso: nos meios colaborativos atuais, o que mais importa é o próprio usuário e sua experiência, não a informação em si. O que, por si só, já é bem interessante.

Eu me interessei principalmente pela resposta da última pergunta, onde ele justifica o fato de ter um blog: “Meu livro não defende que as pessoas não tenham blogs, apenas que não finjam que são substitutos da mídia tradicional ou representantes de fontes de informação confiáveis sobre o mundo.”

Atenho-me somente ao “não finjam que são substitutos da mídia tradicional” e ignoro que ele acredite que não somos “fontes de informação confiáveis sobre o mundo” (e por acaso quem é? Desculpa, mas depois de Jayson Blair, eu não sei!).

Realmente não somos substitutos de nada. Nós complementamos o que já existe – e dessa forma, tudo vai ganhando novas funções e nada se perde.

Vejo os blogs e toda a perspectiva de jornalismo colaborativo (perspectiva porque ainda não o temos de fato, só vejo repercussão do jornalismo profissional por aí…) se aproximando muito, num primeiro momento, do antigo “new journalism”, em que o repórter basicamente relatava o que vivenciava. Ou quase isso.

É que lembro do repórter brasileiro David Nasser, da revista O Cruzeiro, que, em busca de uma boa história a ser contada (e, claro, de uma boa vendagem), inventava situações, aumentava os fatos e, reza a lenda (ou a história, contada no livro “Cobras Criadas”) chegou até mesmo a se vestir de mulher, fingindo ser outra pessoa, para ilustrar uma reportagem chocante. Como dizem, ele era o homem que inventava a notícia.

Ora essa, é ou não é o que muito blogueiro faz brigando por aí na blogosfera ou nos meios virtuais? É ou não é o mesmo que motiva um sujeito a mandar uma foto do acidente da TAM adulterada para um portal (aquele, do “show de calouros”)?

Fora que o estilo de narração é semelhante…

Os blogueiros podem reclamar dos jornalistas, mas se parecem com eles em diversos pontos. E os jornalistas estão descobrindo a melhor forma de lidar com esse novo produtor de informação e se adequar para as mudanças que estão nitidamente acontecendo. Onde reside o conflito?

A mistura dos dois é bem-vinda, desde que aconteça com inteligência, respeito e planejamento. Assim não haverá morte da cultura, da imprensa ou da espontaneidade de ser um cidadão, mas uma otimização das informações na rede e fora dela, confiando em um número maior de pessoas – até porque, naturalmente, os conteúdos vão mesmo ficando mais seguros.

Acho que está na hora de abrirmos a cabeça – e eu, como blogueiro e jornalista em formação, estou com ela em constante conflito – e perceber o que há de bom em cada um dos dois mundos (que, convenhamos, são irmãos).

Deixa disso, galera. O Estadão não está atacando os blogs por dizer que nem tudo na rede é confiável… Ele só quer dizer que ele mesmo está melhor – exatamente por adquirir características da blogosfera!

Rixa boba, que pode ser resolvida numa mesa de bar. Ou na BlogCamp.

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May24

Livro “Abusado”: O lado humano do tráfico de drogas


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Abusado: bom livro-reportagem de Caco Barcellos“Traficante Marcinho VP é morto em presídio”, noticiou o jornal Folha de S.Paulo, em 29 de julho de 2003. O assassinato acontecera na tarde do dia anterior, no presídio de segurança máxima Bangu III, na zona oeste do Rio de Janeiro. Marcinho VP, um dos traficantes mais conhecidos do país, cumpria pena de 25 anos de prisão, mas foi morto por bandidos rivais, descontentes com suas declarações em um livro. Seu corpo foi encontrado por agentes penitenciários dentro de uma lixeira, coberto pelos livros que VP gostava de ler. Entre eles, estava “Abusado – O Dono do Morro Dona Marta”, romance-reportagem de Caco Barcellos, que teria ocasionado sua morte.

O morro Dona Marta, um dos lugares de maior concentração humana do mundo, e seu dono, Marcinho VP – chamado na obra de Juliano –, são os protagonistas do terceiro livro de Barcellos, jornalista consagrado principalmente por suas reportagens investigativas. É exatamente isso que ele faz em “Abusado” (Editora Record, 2003), vencedor do Prêmio Jabuti em 2004, onde convida o leitor a subir o morro carioca e entrar em contato com pessoas e situações que normalmente só a imprensa sensacionalista mostra. Entretanto, o principal mérito do livro é exatamente diferir da postura normalmente adotada pela mídia, não focando nas mortes e nos crimes, mas na sobrevivência do “lado certo da vida errada”. O resultado é extremamente interessante e é, certamente, um dos maiores registros históricos da vida na periferia da sociedade brasileira.

Fruto de mais de 4 anos de apuração - a obra resulta do árduo trabalho de ouvir centenas de depoimentos, coletar informações, cruzá-las e tentar checá-las nos órgãos oficiais -, “Abusado” conta, do ponto de vista dos moradores da favela, a vida e ascensão de Juliano VP ao cargo de maior poder no Morro Dona Marta, localizado a menos de 300 metros da prefeitura carioca. Acompanhamos sua vida desde a infância, onde já demonstrava vocação para o crime, passando pela adolescência, por sua entrada no tráfico de drogas, pelo amadurecimento e pelas primeiras ações como guerrilheiro até chegar na conquista do Morro, na ocupação do território pelo Comando Vermelho – do qual fazia parte -, por sua atuação como líder comunitário, pelo envolvimento com intelectuais brasileiros e por suas fugas cinematográficas, terminando na prisão em Bangu, onde VP acabou morrendo, apenas dois meses após a publicação do livro.

Mas “Abusado” não é apenas um registro da história do tráfico e da criminalidade. O livro fala, sobretudo, de pessoas, mergulhando fundo para se explicar como tudo aquilo se formou. Juliano / Marcinho é um personagem fascinante, com nuances e ideais, além de gosto por música clássica e por literatura e filosofia. É tão cativante e carismático que captura o leitor e o faz se surpreender ao perceber que, a certo ponto, está torcendo pelo bandido. Bem e mal se confundem e tangenciam, e a ação policial e o panorama traçado por Barcellos fazem com que nos questionemos se somos nós as vítimas daqueles atos criminosos – o que o livro em nenhum momento nega – ou se são eles, os moradores do morro, as vítimas de uma sociedade e de um governo omisso e desastrado. Afinal, quem são os heróis e os bandidos em uma situação tão confusa como aquela?

É consternador perceber, com a penetração do autor em uma camada mais profunda e menos óbvia daquele mundo “paralelo”, que várias daquelas pessoas estão no crime apenas para conseguir manter, um dia, uma vida honesta e chegar ao fim dela com dignidade – mesmo que este venha a acontecer rapidamente.

Dá a sensação de que o problema da violência e do narcotráfico nunca terá um fim, já que, quando um líder morre ou é preso, é rapidamente substituído, e, com alguns ajustes, tudo continua a funcionar normalmente. Os moradores da favela têm que conviver com aquela realidade, sobrevivendo como podem, abandonando tudo a qualquer momento. Nesse aspecto, “Abusado” traz a tona uma vida que sempre está insegura, de passagem, e, apesar de uma forte união aparente, é solitária. Quem lá vive não tem nenhum lugar no mundo, nem nos barracos, nem no asfalto. Vivem na clandestinidade – muitas vezes sem nem seus documentos reais – mesmo quando seguem adiante, para uma vida mais “digna” fora dali. É como se, apenas por nascerem na favela, mantivessem um elo eterno com a criminalidade.

“Abusado” é uma grandiosa reportagem que tenta se manter o mais imparcial possível. As ricas descrições, o estilo de narração e as tramas contadas tiram o ar e despertam comoção, raiva, solidariedade e vertigem. Sentimentos contraditórios – como a “vida errada” é -, que nos fazem compreender melhor todo aquele universo que, na maioria das vezes, acompanhamos distantes, fadigados por nosso senso comum, que costuma dar mais atenção às luzes da favela do às pessoas que lá sobrevivem.

O livro só seria melhor se, ao fecharmos, tivéssemos a certeza do fim daquela triste história de exclusão social e falta de oportunidade que, de forma alguma, terminou na lixeira junto ao fascinante Marcinho VP. A ficção cairia bem se fosse verdadeira. Não é, por isso a realidade (já no começo da obra, o leitor certamente se questionará sobre como toda aquela história foi reconstruída, o que o autor explica na última parte da obra) torna “Abusado” tão interessante.

Além da óbvia qualidade jornalística, com material riquíssimo sobre a história do tráfico e das facções criminosas – como o Comando Vermelho, de Juliano -, o que encanta no livro de Caco Barcellos é a sua sensibilidade de mostrar as tonalidades do relacionamento humano - como a grande amizade da Turma da Xuxa e, especialmente, com Luz e Kevin - e o que há por trás de mitos contemporâneos, mostrando que há bondade, inteligência, sensibilidade e fraqueza por traz daqueles que, pelas manchetes dos jornais, parecem monstros irracionais e inescrupulosos.

Desse modo, “Abusado” nos incita uma perturbadora reflexão diante de nossas opiniões e conceitos, utilizando aquele mundo aparentemente distante para falar do que há de mais íntimo: as nossas próprias verdades, que, com ele, serão estremecidas. Imperdível, até porque, parece, nunca deixará de estar atual. Você já viu o noticiário de hoje?

Sua visão sobre o tráfico e os traficantes com certeza mudará após ler esse livro. A minha, definitivamente, é outra.

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Apr28

De volta - e o esforço para ser um bom Jornalista


Vários dias sem postar, fruto de uma semana insana na faculdade com trabalhos complicadíssimos que, claro, acabaram ficando para a penúltima e última horas e conseguiram me fazer dormir cerca de 2 horas por dia, durante toda a semana, além de quase tornar a Cásper Líbero minha residência oficial.

Li muito, escrevi muito, pensei muito. É incrível o esforço que temos para nos tornarmos bons jornalistas. Tanto sacrifício, muito provavelmente, não valerá a pena, pragmaticamente falando. Mas como conteúdo para a vida e para formação cultural e profissional é importantíssimo.

Sempre falo que a melhor coisa de se estudar jornalismo é a multiplicidade de temas. Como nossa área de atuação é o mundo, é nele que o curso de baseia, diferentemente da maioria das demais carreiras. Assim, tratamos de diferentes coisas ao mesmo tempo, fazemos trabalhos divertidos e interessantes. Um dia analisando e fazendo reportagem sobre o budismo, outro dia sobre fobia social infantil e, logo depois, sobre a ditadura militar. O conhecimento geral que adquirimos é interessantíssimo mesmo para quem não deseja seguir na profissão.

Se é interessante para qualquer um, é imprescindível para quem quer ser um bom Jornalista (ah, sim: uso maiúscula para o sentido pleno, o tal “jornalismo nobre” que eu ainda tenho em minha cabeça, e minúscula para o sentido popular, corriqueiro e até vulgar). Quem lê o blog desde o começo, quando eu tinha 14 anos e já me achava um jornalista, sabe o quanto fui contra a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. Mudei completamente de idéia - e me dei conta disso ao ler um post no Querido Leitor em um momento todo singular: Após 12 horas trancado na faculdade trabalhando e uma discussão com amigos sobre o esforço para sermos bons numa profissão que, ainda hoje, permanece sem muita identidade (quantas pessoas não respondem, se questionadas sobre qual o jornalista preferido delas, que adoram o Arnaldo Jabor? Ele é Jornalista? O Mainardi é? E para a linha de boazudas que diz na TV ser “modelo, atriz, apresentadora e jornalista”?). Fiquei chateado e um tanto atordoado com esse post e com o da Cora, que originou a “polêmica”, principalmente pelo respeito que tenho por ambas (a primeira já foi Jornalista, a segunda ainda é). Vale a pena ler os comentários dos dois posts e refletir. Discussões de ótimo nível.

Eu ainda acredito que ninguém vira “jornalista”, mas nasce assim. Entretanto, a faculdade me parece fundamental para que possamos fazer um Jornalismo melhor, mais consciente, com uma identidade realmente própria e uma qualidade superior. Não sei se vale a pena. Pelo sim, pelo não, estou tentando.

Enquanto isso, paciência. O resto da minha vida vai ter que esperar, mesmo sabendo que, para muita gente, qualquer pessoa que queira - mesmo os que nunca refletiram mais profundamente sobre o que é o Jornalismo e como fazê-lo bem - estarão no mesmo nível que eu.

De qualquer forma, os OutrOs OlhOs estarão sempre abertos e eu continuarei buscando ser um bom Jornalista

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Apr8

Crianças e tios, não briguem.


Nossa blogosfera é meio bobinha ainda, de uma pequenez que as vezes me surpreende. Amigos, para blogueiros profissionais, vocês estão pessoais demais. Deixa disso, memes bobos e posts rabugentos sempre existiram, só que nunca ninguém ligou muito.

Uma pessoa do jogo listar os 10 jogadores que menos gosta não deveria surpreender ninguém. Tem muito interesse e estratégia, afinal, todos querem ser o vencedor. Replicar e aceitar a briga nada mais é do que corroborar a importância daquele jogador para você. É natural fazer isso, mas no fim é ele que sai mais forte.

Tão comum quanto é um jogador que esteja em alguma posição de destaque começar a chorar pitangas, evidenciando que está em evidência. É humano. Mesmo travestido de ironia, só vem compensar alguma falta, e o score continua o mesmo.

Eu pensava que alguns de vocês, principalmente meu tio favorito, estivessem já em um nível diferente, superior. Parece que não.

Que pena, a lista não é original, nem transgressora, nem equivocada. É o típico conteúdo de diários pessoais. Agora, responder com algo na linha “e você que não tem leitor?” é tão imbecil, infantil e vazio que depõe mais contra do que defende.

Sei que o problema é bem maior e mais sério. Mas da origem disso tudo, embora eu tenha acompanhado pela lista (a de e-mails), prefiro não comentar. É digna de desprezo pela ignorância que cerca algumas pessoas. Tem tanta gente se queimando que, bem, não haverá processo judicial que limpe a barra.

Mediocridade existe em todos os lugares, principalmente naqueles em que qualquer um pode falar. O trunfo está na mão da gente mesmo, que pode escolher não dar ouvido aos imbecis. Por mais difícil que isso seja passar por cima, uma voz nunca se sobrepõe a um coro.

Blogs são conversações, mas estabelecer comunicação é bem mais complexo e difícil. Por que vocês não conversam a sério, em privado, sem ignorância? Por que vocês não ignoram aqueles que te incomodam?

Paz, blogosfera tupiniquim. Guardem seus leões para vocês mesmos.

Por que o relacionamento humano é tão complicado?

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OutrOs OlhOs Podcast Está no forno o novo episódio do OutrOs OlhOs Podcast, falando sobre blogs, e você pode participar dele. Basta responder, em áudio, a pergunta:

O caminho da comunicação passa pelos blogs?

Grave a sua resposta, com até dois minutos, em MP3 ou WAV, usando algum programa do tipo Audacity (que é gratuito), e envie para podcast@outrosolhos.com.br. Também dá para gravar diretamente nos comentários do podcast, clicando aqui.

As gravações poderão ser veiculadas no nosso próximo episódio!

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OutrOs OlhOs, por Gustavo Jreige
SP - Brasil | Desde 03/02/2003





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