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Oct20

Versão brasileira: “High School Musical” e as adaptações tupiniquins


As inscrições para a seleção da versão nacional do mega-sucesso “High School Musicalestão abertas (clique aqui e vá para o site de “Disney High School Musical - A Seleção”). O telefilme será feito com jovens atores brasileiros, que também vão cantar e dançar músicas que viraram hits mundo afora.

Certamente tudo será traduzido, mas se será ou não adaptado para nossa realidade é uma outra história. E é aí que mora o perigo: será que um “Musical Colegial” viraria moda ou seria um desastre?

Se tomarmos como base as últimas adaptações de dramaturgia internacional (em outros tipos de atração, as versões brasileiras vão geralmente bem), não teremos boas perspectivas – exceção importante a “Floribella”.

As novelas mexicanas adaptadas para o Brasil pelo SBT, como “Amigas e Rivais”, que está no ar, não conseguem dar audiência. Quando se trata de SBT, há dezenas de itens que podem ser responsáveis pelo fracasso, mas um se mostra comum em todas essas produções: Ela não fala diretamente com o público brasileiro.

É o mesmo de “Donas de Casa Desesperadas”, da Rede TV!, a versão nacional de uma das séries de maior sucesso atualmente no mundo, a americana “Desperate Housewives”. Esse programa foi produzido com um grande capricho, a emissora gastou mais por episódio do que a média brasileira e a parceria com a Disney garantiu cenários de altíssima qualidade (em uma cidade cenográfica montada na Argentina, utilizada por diversos países da América Latina). A direção é eficiente, o visual é belíssimo, o texto é praticamente o mesmo do que o original, mas a falta de algo grita: ali não tem o Brasil.

Não dá para uma série dessas, que sofreu pouquíssimas adaptações, parecer brasileira, já que a realidade norte-americana é bem diferente da daqui (por exemplo: as nossas “Donas de Casa” moram em Alphaville, mas, tal qual as americanas, não possuem empregadas domésticas. Isso é normal lá, mas não para a classe-média brasileira). A vinheta, que foi toda recriada e ganhou um sambinha, é uma das coisas mais legais da série, exatamente por ser original do Brasil. O resto parece reencenação e, convenhamos, isso não tem muito propósito. Ter características próprias e legítimas é fundamental.

Será que no “High School Musical” brasileiro, o protagonista será o capitão do time de futebol da escola ou o time continuará sendo de basquete, que não é tão popular em nosso país quanto lá? Qual seria o equivalente brasileiro do nome Troy? Algo como… Toím, apelido de Antônio? Faz sentido um musical em escola brasileira (lembrando que, no original, os protagonistas não são ricos)? Daria, em nosso país, para ter todo o show na quadra de basquete, com cheerleaders, de forma natural?


São muitas coisas que não colam por aqui, porque não fazem parte do modo de vida brasileiro. Não é por isso, entretanto, que o filme está destinado ao fracasso ou a ser ruim. Basta ele ganhar vida própria, como “Floribella” teve.

A novela da Band foi um sucesso memorável, tendo duas temporadas e conquistando uma audiência satisfatória. O maior feito, porém, veio daquilo que é o trunfo de “HSM”: a parte musical, pop o suficiente para conquistar adolescentes, romântica o bastante para arrebatar pré-adolescentes sonhadoras e inocente e fantasiosa na medida certa para agradar também a crianças. Misturado com efeitos visuais de primeira qualidade e um elenco carismático, a novela acabou se fortalecendo e vendendo produtos que nem água – de CDs e DVDs a ringtones e álbuns de figurinhas, passando por bonecas e tênis. Com seu roteiro quase que completamente nacional (partindo apenas da premissa do original argentino), “Floribella” decolou, dando prestígio a seus atores e roteiristas. Estes, não por acaso, assumiram a nova temporada de “Malhação”, na Globo, que está em crise de audiência, e já implementaram uma coisa que deu certo em “Floribella” e no “HSM”: Os atores são mais jovens, interpretado personagens com idades próximas às deles.

Se o nosso “High School Musical” tiver esse mesmo cuidado com as músicas e coreografias e conseguir fugir da cafonice e dramaticidade que tendemos a depositar em temas como primeiro amor e sentimentos da adolescência, tende a fazer sucesso. Tem muito dinheiro envolvido nisso e, como a produção certamente é da Globo, há chances maiores de ter boa qualidade técnica e artística.

O desafio é tornar o filme condizente com nosso país. Os nossos adolescentes (ou pré-adolescentes) não são tão diferentes dos de lá (me parece que os dilemas desse período da vida são universais) e até os gostos são parecidos (musicais e tramas de amor inocente caem fácil no gosto popular de ambos os países), mas a regra da televisão não pode ser quebrada: o telespectador quer se ver na tela e projetar aquela história à sua vida. Se o Troy e a Gabriella daqui conseguirem representar com tons nacionais a idealização do começo da adolescência tão bem quanto os de lá fazem, teremos que nos preparar para não ouvir falar em outra coisa por um bom tempo.

Agora, se fizerem algo do nível que apresentaram no Criança Esperança desse ano (como você vê no constrangedor vídeo acima), colocando figuras do naipe de Felipe Dylon e Perlla como o casal principal, a aversão será tanto que acho melhor se preparar é para mudar logo de país.

Compare Preços: DVD High School Musical, CDs de High School Musical, CDs de Floribella, CDs de Felipe Dylon, CDs de Perlla

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OutrOs OlhOs, por Gustavo Jreige
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