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Virada Cultural: O que a fumaça não pode encobrir
“PM e fãs dos Racionais se enfrentam na praça da Sé”, noticia a Folha de hoje, que traz uma grande foto de capa com policiais atirando. O Fantástico fez uma edição especial do “Profissão: Repórter”, já que Caco Barcellos estava na Praça da Sé no momento da confusão. O Estadão também destaca em sua capa: “Conflito na Virada Cultural fere 6″. O conflito foi o grande destaque dessa terceira edição da Virada na imprensa, mas nem a fumaça das bombas de gás lacrimogêneo e dos tiros de borracha da PM podem encobrir o que de bom houve no evento. E não foi pouco.
Cheguei no Anhangabaú por volta das 20h40 para assistir ao show d’O Teatro Mágico (que, como você já sabe, eu adoro). O metrô estava lotado, e todo mundo desceu na mesma estação que eu.
Mesmo longe da Av. São João, perto de onde o show acontecia (começou às 20h), o número de pessoas impressionava. De perto - e eu tentei chegar perto do palco - assustava: uma multidão ocupava uma grande parte da rua, era muita gente mesmo. E o melhor: boa parte das pessoas cantando junto com o Teatro. A Folha diz que foram 20 mil pessoas. Não sei, tinha muita gente - certamente foi o maior público da história do grupo -, mas… Bem, a Folha disse que começou às 20h30, sendo que começou às 20h… Não dá pra confiar nos números, tudo parece estar inflado, até porque é muito difícil contabilizar o público, que se movia entre os palcos.
Depois do show do Teatro, fui para a fila do Theatro Municipal para assistir ao show do João Bosco. Tudo bem, sem nenhum problema. O clima era bom, sem nenhum transtorno. Além disso, trupes vestidas como clowns brincavam de sombra e recitavam poemas (como um grupo com camiseta do Teatro Mágico, que eu fiz questão de seguir, que recitava “Pai, me ensina a ser palhaço”, como o Cordel do Fogo Encantado inicia a música “Palhaço do Circo Sem Futuro” nos shows e no DVD). João Bosco no Municipal foi ótimo, claro. Não tinha como não ser.
De lá voltei ao Boulevard São João para o show do Ed Motta, que também aconteceu sem maiores problemas, apesar do empurra-empurra. No meio do show, eu e meus amigos resolvemos comer em alguma lanchonete, mas não havia nada decente aberto. Andamos por todo o centro histórico, pelo Largo São Francisco, até perto da Praça da Sé.
Não tivemos coragem sequer de ir ao show do Nação Zumbi, que precederia o dos Racionais MC’s, porque tínhamos certeza de que a apresentação da banda de rap daria problemas. Mesmo estando muito perto da Praça da Sé, não quisemos passar por ela à procura de alguma lanchonete. O ambiente era terrível, cheio de pessoas estranhas (o preconceito só parece preconceito quando estamos longe da realidade), gente bêbada e mendigos.
De verdade, era totalmente previsível a confusão. Teoricamente, é fantástico haver apresentações de bandas com apelo nas camadas mais populares, contrapondo à programação do resto da Virada que, bem ou mal, agrada mais o público mais elitizado.
O problema é que, na prática, costuma dar confusão. Pode ser uma visão preconceituosa - eu não nego -, mas foi corroborada pelo acontecido.
Um colega meu que estava no show só viu a confusão, e duvidou que o público tivesse alguma culpa. Para ele, foi a polícia que quis se vingar das letras que a criticavam. Duvido muito, até pela relação publicada de lugares e bens destruídos. Às vezes nossa boa vontade faz com que não queiramos acreditar na realidade.
Pelo que me falaram, a tropa de choque não agiu apenas na Praça da Sé, como a mídia disse. Querendo evitar possíveis confusões nos outros palcos do centro, ela jogou bombas em todos os lugares, a fim de dispersar o público. Deu certo, e lá pelas 6h30 da manhã somente um show agitava o centro, com um cover dos Beatles. Os demais pararam por um tempo, mas nenhum incidente grave foi registrado.
A questão é que, apesar de toda atenção dedicada ao episódio da Sé, ele foi isolado. Embora eu até tenha ouvido boatos de arrastões e furtos, não presenciei nada. O clima, para mim, era de festividade e paz, me senti mais seguro do que quando ando por aquelas mesmas ruas durante o dia. Foi muito bom ver tanta gente na rua, curtindo atrações de ótima qualidade. Nunca tinha visto nada parecido.
O funcionamento ininterrupto do trem e do metrô foi essencial para o sucesso dessa Virada Cultural que, para mim, terminou na manhã de domingo, com um café no Frans da Paulista (pois é, não achamos nenhuma lanchonete decente lá na região) e, depois, a observação do nascer do sol entre as torres da avenida mais famosa do país.
Muito bom.
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Cordel do Fogo Encantado iluminando na Globo: Conheça o grupo e as músicas
Compare Preços: CD “Cordel do Fogo Encantado”, DVD “MTV Apresenta: Cordel Do Fogo Encantado”, CD “Transfiguração”, CD “O Palhaço do Circo Sem Futuro”
Tem felicidade maior do que as suas bandas de coração fazerem cada vez mais sucesso? Acho que não. Eu estabeleço uma relação quase espiritual com as minhas músicas preferidas e, por isso, só vou poder dormir após este post. É que o “Cordel do Fogo Encantado” estava até agora no “Altas Horas”!
Cordel do Fogo Encantado? Hãn?
Você ainda não conhece? Demorou! Aliás, demorou muito, alguns anos!
Mas ainda é tempo. Surgido como um grupo teatral na cidade de Arcoverde, no sertão de Pernambuco, o Cordel mistura música, literatura e, claro, teatro. O resultado é uma explosão cultural tão fascinante quanto estranha, diferente, única. Misturando elementos, o grupo comandado por Lirinha traz canções fortes, com marcantes tambores. Entre músicas, a poesia - que nos shows é dita em coro com os fãs - de mestres consagrados de nossa literatura (como João Cabral de Melo Neto e Euclides da Cunha) e mestres ainda desconhecidos pela maioria (como Patativa do Assaré e o poeta Zé da Luz). A mistura de rock e música popular faz emergir a cultura mais profunda do nosso país, que vem há muito conquistando o público.
Essa não foi a primeira vez deles na TV. Quem assiste à TV Cultura já cansou de vê-los no “Metrópolis” e até em uma apresentação ao vivo no “Festival Cultura” de música brasileira. Na MTV eles também já tocaram, no especial “MTV Apresenta: Cordel Do Fogo Encantado“, que virou DVD. Nem mesmo na Globo foi estréia. Uma música deles tocou nessa edição do Big Brother, para desespero dos fãs, que, além da banda em si, também amam a atmosfera cult que a envolve.
Eu adoro bandas cult e pouco conhecidas, mas sempre quero que elas cresçam e atinjam a massa. Poxa, que bom seria se um som com essa qualidade freqüentasse as rádios, não? Eu acho, mas muita gente não e, agora, com o grupo cada vez mais popular, não faltam críticas. Dizem que os membros da banda estão virando estrelas, que os shows estão caros e que a música está perdendo sua cara.
E está, mas de forma proposital. O nome do mais novo CD deles é “Transfiguração” e traz canções mais musicais do que nos anteriores “Cordel do Fogo Encantado” e “O Palhaço do Circo Sem Futuro. É, sem dúvida alguma, o álbum mais fácil de digerir e também o mais “comum” deles, alimentando as acusações de que eles estão mais comerciais. Segundo eles, a diferença é que, dessa vez, o processo criativo foi das músicas e do álbum ao show, e não o contrário, como havia acontecido anteriormente. Por isso que os críticos musicais gostaram tanto desse CD, julgando-o mais maduro. Ele realmente traz coisas muito boas, como “Preta” a “Morte e Vida Stanley”, que eles apresentaram no “Altas Horas”, além de “Aqui”, “Pedra e Bala”, “Transfiguração” ” e “Louco de Deus”. Vale a pena conhecer.
Os rapazes do Cordel já fizeram shows em diversos país e são referência em nossa música há um bom tempo (ja ganharam até o Prêmio Tim, a mais importante premiação musical brasileira), com uma legião de fãs que sabem cada vírgula de suas letras e poesias. Tive prova disso quando, em um show do Teatro Mágico há algumas semanas, a trupe paulista tocou, no meio de sua “Camarada D’água” (que, aliás, foi gravada com a participação do pessoal da banda de Arcoverde, embora a maioria não saiba), um trecho de “Chover”, que talvez seja a música de maior sucesso do Cordel do Fogo Encantado. E não é que o público do Teatro sabia a música inteira do Cordel? Inclusive a poesia, gritada como num ritual, numa missa. É mágico, encantado.
Eles não ligam para os críticos e garantem que o próximo CD será ainda diferente dos anteriores. O por quê? O próprio Lirinha explica, respondendo a uma pergunta minha no Bate Papo UOL no ano passado: “Porque a gente acredita que temos raízes, mas não como as árvores. Temos pernas e podemos caminhar. Acreditamos no trânsito e na divisão política dos lugares, que só cria submissão. Não temos nenhum receio de perda de identidade.”
Se é assim, sim. Que venham as novidades, que venha o sucesso.
Está esperando o que para ir lá no site e no Myspace deles e baixar tudo que puder e ir no Youtube conhecer essa premiada e deliciosa banda herdeira do mangue beat que canta o sertão e coloca fogo mundo afora?
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