por / 4 Out

Em menos de 8 horas, começará em todo o país a eleição de prefeitos e vereadores. Também será, em municípios sem segundo turno, o fim do tormento que a campanha eleitoral pode ser.

Nas últimas eleições, presidenciais, eu estava em meu ápice de interesse político: era minha primeira eleição obrigatória, o primeiro ano de faculdade – após ter contato com as ciências sociais e seus pensadores – e a primeira cobertura que eu fazia de algo na vida – em blog sobre a disputa eleitoral que criei, o Olhos do Brasil (já fora do ar, por incompetência técnica minha). Cobri debates em tempo real, de dentro dos estúdios de TV, fiz entrevistas exclusivas com os principais candidatos a presidência (menos o Lula, o único que não consegui) e me meti pela primeira vez naquele bolo de jornalistas que a gente vê na TV. Uma puta experiência que deveria ter feito eu gostar ainda mais de política.

Dois anos depois, estou completamente afastado desse assunto. Talvez pelo certo descaso que sempre tive da política municipal, talvez pelos caminhos que a minha carreira têm seguido. Mesmo que apenas como cidadão, passei batido por essas eleições e, faltando tão pouco para votar, ainda elucubro sobre anular ou não meu voto – algo que sempre condenei.

Pode ser falha minha, mas os candidatos certamente não ajudam. Eu voto em Poá, município da Grande São Paulo onde ainda moro, e por lá não tem a Lei da Cidade Limpa. Adivinha? As ruas estão tomadas de banners, faixas, cavaletes… Todo dia tinha panfleto na porta de casa, com coisas toscas como foto do candidato petista junto ao Lula (o que é até normal) e foto de candidato a vereador junto com a Marta Suplicy – que, qual é?, é candidata a prefeita em outra cidade. Adivinha se algum tinha propostas ou coisas do tipo?

A poluição não é apenas visual, mas principalmente sonora: são muitos os carros de som tocando a todo volume paródias bizarras de canções populares, indo de “Bate o pé” (“Roberto Marques pra prefeito é solução / vote 14 na eleição”) a Pererê (“Eduardão para prefeito / é o melhor para Poá / Eduardão é 25 / Melhor do que ele aqui não há”), para ficar nos dois principais candidatos.

Não tivemos debates televisivos (afinal, não TV local da cidade) e os jornais daqui não são dá tão confiáveis. Fica mais fácil, portanto, enganar e manipular o povo. E das maneiras mais oportunistas possíveis: Poá virou um canteiro de obras (como toda cidade em época de eleição municipal) e, pior, a principal festa da cidade recebeu o maior número de artistas famosos da história, um atrás do outro. Foram 19 no total, com nomes como Dominguinhos, Fábio Junior, Capital Inicial, Bruno e Marrone, NX Zero, Paulo Ricardo, Calypso, Edson e Hudson… Não pode ter artista em comícios, mas ninguém falou nada sobre shows pagos pela prefeitura quando o prefeito disputa reeleição, não é mesmo?

Cachorro e gato gigantes na Av. Paulista

Mas se você acha que isso é problema de cidade pequena – que nem tem segundo turno -, pode ficar mais preocupado, já que a situação em São Paulo, capital, não melhora tanto. Fica, claro, menos dramática – felizmente, os olhos do resto do país e principalmente da imprensa afastam os oportunismos mais gritantes (apesar de ter gente prometendo internet sem fio grátis em uma cidade que não tem nem computador em todas as escolas).

Com a legislação municipal, nada de muito barulho ou sujeira nas ruas. Mas tome bandeiradas, carreatas, bicicletas com cavaletes e até anúncios segurados por pessoas. Ainda assim, nada desperta mais atenção do que um candidato a vereador e seus bonecos gigantes. Tem uma versão dele mesmo como boneco de Olinda (pois é!) perambulando a cidade, além de um carro com um gato e cachorro andando por aí, como você pode ver na foto que tirei na Av. Paulista.

Paro por aqui, sem nem citar o horário eleitoral na TV. Precisa?

Nessas eleições, bizarrices não faltaram. Não é por isso, entretanto, que o nosso voto também pode ser bizarro. Pense bem nessas últimas dezesseis horas e meia. Ou então prepare-se para bizarrices muito mais graves no governo de seu município.