por / 23 Abr

Você sabe, o mercado de comunicação está sofrendo mudanças em altíssima velocidade e os hábitos de consumo de mídia estão em plena mutação, ganhando novos tons a cada dia. É sensível.

Essa mudança de panorama vem, em partes, da expansão da internet e, antes disso, da velocidade que a vida urbana tem atualmente. Afinal, agora, não dá mais para perder tempo: a mídia tem que ser rápida, estar disponível sob demanda e atender às buscas de seus consumidores.

Todo mundo alardeia que os jornais impressos estão em pleno declínio e dizem até que vão acabar. Não sei. Mas, de qualquer forma, é visível a crise que eles passam em todo o mundo, com redução de redações e mudanças no perfil de publicações, tendo que ampliar a presença online.

Olha como estão as coisas no mercado norte-americano:
- o número de jornalistas trabalhando em jornais impressos no último ano foi o menor em 25 anos, segundo a Associação Americana de Editores de Jornal;
- no ano passado, a publicidade em jornais caiu, em geral, 7,9%, com os anúncios impressos tendo queda de 9,4% e os online tendo aumento de 18,8%, pelos dados da Associação de Jornais da América;
- em 2006, 31% dos americanos tinham a internet como fonte regular de notícias, 11% a mais do que em 2000, enquanto a leitura de jornais caiu de 47% em 2000 para 40% seis anos mais tarde, como afirma um estudo do Pew Research Center.

No Brasil, que já tem internet em 24% de seus domicílios, com ela atingindo 22% da população (ou 24% de domicílios com computadores e menos 15% da população online, segundo outras fontes), ainda não chegamos aos níveis americanos, mas a história não é tão diferente assim.

Grupos de mídia, como Folha, Globo e Estadão, estão vendo seus portais ficarem cada vez mais importantes, com a audiência e o faturamentos crescendo. Em compensação, experimentam a redução na vendagem de suas publicações.

Por aqui, a web recebe apenas 2,7% dos investimentos em publicidade, segundo dados do projeto Inter-Meios, mas as previsões são que, a médio prazo, ultrapasse os investimentos em impressos.

Fim dos jornais? Ainda não. Mudança de perfil? Obviamente.

E por que disso tudo?

Simples: os consumidores de mídia não têm mais tempo para procurar as informações relevantes para si em meio a tantas que não lhe dizem respeito. Você tem?

Para mim, não faz sentido gastar para comprar um jornal inteiro e ler apenas o caderno de esportes – se esse for o objetivo. É muito mais fácil, prático e econômico comprar um jornal especializado ou acessar um portal de notícias, que, além de tudo, estará muito mais atualizado e ainda terá conteúdo multimídia.

Segmentação, interação e personalização são as palavras-chaves dessa era da comunicação em que o poder é cada vez mais do público, que, claro, não é mais passivo.

Jornal Gigante

A “culpa” dessa nova realidade, em partes, vem daqui mesmo, dos blogs. Além de haver nicho, em blogs a escrita é muito mais íntima e pessoal – afinal, o blogueiro realmente gosta do que escreve e atrai leitores que compartilham desse interesse. Junto a isso, o blog é constantemente alterado de acordo com os gostos da audiência, que pode interagir e participar efetivamente, deixando-o cada vez mais eficiente para o público que alcança. O poder do antigo leitor, agora usuário de informações – ou interagente -, aumenta, influenciando toda a produção de mídia.

É do jeito que o público quer ou o blog morre sozinho, isolado. Não é verdade?

Os jornais gratuitos, como o Metro e o Destak, estão em plena expansão. Eles atendem a nichos, escolhendo suas notícias de acordo com o público-alvo, determinado pelo local de distribuição. Assim como na internet, as informações são passadas de forma rápida e há espaços interativos, tentando envolver o leitor na produção do jornal.

Na TV a cabo, onde o conceito de segmentação também existe há muito tempo, aumenta a oferta de conteúdos digitais, como a interatividade. A Globo News tem até um portal em seu canal de TV com notícias em texto atualizadas e os destaques de sua programação. Bem prático.

Outra tendência da TV que já é realidade nos EUA e chega aos poucos no Brasil é a do Digital Recorder, como o TiVo. Com ele, dá para gravar a programação digitalmente, permitindo que ela seja vista sob demanda, na hora e quantas vezes o espectador quiser. Junta-se, assim, interação, segmentação e conteúdo sob demanda em uma só mídia.

Também em crescimento estão as revistas customizadas – como a MIT, da Mitsubishi -, que têm público-alvo bastante específico. Tudo é pensado para o perfil do leitor da publicação, das reportagens ao design e à linguagem, permitindo uma experiência mais efetiva com a informação, sem excesso de conteúdo desinteressante. São feitas sob medida, atendendo a um número menor de leitores, mas que saem muito mais satisfeitos. Alguém viu uma cauda longa por aí?

Os portais de internet cada vez mais possuem essas características de personalização. Redes sociais, comentários em notícias e áreas interativas dão o tom de participação do usuário. Aí o jornalismo se reinventa, com multimídia, conteúdo colaborativo, infográficos e até mesmo com news games, tentando gerar melhores experiências e atingir em cheio o público-alvo, também conhecido, através de análises da navegação. E ainda tem a busca, que permite chegar facilmente no que a gente quer.

Mas nada supera os elementos que dão a cara dos usuários aos portais, como a folksonomia, as palavras-chaves mais buscadas, as notícias mais lidas, mais comentadas, mais votadas… O público, mesmo sem se dar conta, passa a funcionar como uma espécie de editor, indicando – através de seus hábitos – o que é mais relevante em todo o conteúdo. É a beleza do gatewatching! Pra que perder tempo? :D

A única mídia que aparentemente segue sem segmentação e interação é justamente a mais popular delas: a TV aberta, que recebe 59,2% das verbas publicitárias em nosso país. A interação, sem um sistema digital de televisão que exista pra valer, ainda é pequena, mas mostra-se um trunfo para atrair atenção aos programas – como os matinais, que sorteiam prêmios (de “Bom dia e Cia” a “Hoje em Dia”), ou os reality shows. O público gosta de decidir os rumos que irá ao ar…

Como é um veículo para ser visto em família, a generalização de assuntos e conteúdos acaba caindo bem, porque agrada a um número maior de pessoas. Ou seja, continua atendendo ao interesse do público – apesar deste já apresentar mudanças, que exigem ajustes rápidos.

As perspectivas da comunicação, portanto, não estão em nenhuma mídia em especial, no papel, nos pixels ou no tipo de tela.

Sobreviverão todos os que conseguirem compreender seu público e modificar o que for necessário para proporcionar a ele a melhor experiência com o conteúdo oferecido. Para isso, tem que atender suas necessidades e se aproximando dele – ou, no caso, da gente.

O futuro da imprensa é ser vestida por cada um de seus consumidores. Qual é o seu número?